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Tecnologia “Quando seu filho faz uma tarefa com a inteligência artificial, perde a chance de aprender”, diz especialista

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Para o especialista, ainda é cedo para termos uma classificação de idade para IA, porque os modelos evoluem muito rapidamente. (Foto: Reprodução)

Existe uma idade certa para começar a usar a inteligência artificial (IA)? Como orientar um filho de 12 anos? Muitas famílias têm dúvidas sobre o assunto. Segundo Paulo Blikstein, professor titular da Universidade Columbia, nos EUA, diretor do Transformative Learning Technologies Lab e especialista em educação e tecnologia, toda vez que você não faz uma tarefa e pede para um chatbot fazer, está perdendo uma oportunidade de aprender. Leia abaixo alguns trechos da entrevista que o especialista concedeu ao jornal O Globo.

– Existe alguma idade segura para liberar a interação com IA?Ainda é cedo para termos uma classificação de idade para IA, porque os modelos evoluem muito rapidamente. As capacidades de um modelo hoje e daqui a 6 meses vão ser muito diferentes. Também não temos um arcabouço teórico de pesquisas para entender o impacto desses modelos em diferentes idades. Isso é algo muito urgente a se fazer. Do mesmo jeito que há linhas mestras para a classificação etária de filmes, por exemplo, vamos precisar criar essa classificação para a IA, pensando em modelos mais básicos, que fazem operações cotidianas; modelos com capacidade conversacional; modelos que simulam emoções… Para que essa classificação seja feita, é preciso levar em conta ainda o que sabemos sobre o desenvolvimento humano. A função executiva, que inclui planejar a resolução de problemas e o gerenciamento do tempo, além de organização, disciplina e foco, é algo que só se desenvolve completamente por volta dos 18 anos. Há ainda o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. Interagir com uma IA conversacional pode ser muito perigoso para uma criança que não entende bem que aquilo não é, de fato, humano. Modelos mais complexos de IA deveriam ser usados só na universidade. Em fase escolar, a criança e o adolescente estão desenvolvendo uma série de habilidades. As ferramentas de inteligência artificial são genéricas, universais e podem fazer muitas coisas, como criar vídeos, fotos e canais de comunicação com outras pessoas. Ou seja, podem criar riscos de segurança digital. É toda uma outra dimensão de perigo para a criança e o adolescente. Não é como acessar o YouTube, por exemplo, que pode ser facilmente bloqueado pelos pais.”

– Qual ferramenta oferece menos risco para as crianças? Alexa, Gemini ou ChatGPT?Todos os chatbots, como Gemini, ChatGPT e Claude, e também alguns modelos abertos que estão na internet, têm riscos parecidos. É importante dizer que alguns desses modelos chineses são mais abertos e transparentes, por não serem controlados por empresas. Mas, ao mesmo tempo, não têm os mesmos mecanismos de proteção que os que rodam nos servidores da OpenAI (ChatGPT) ou da Anthropic (Claude). Alexa e os smart speakers hoje são bem menos arriscados porque a interação é mais reduzida e há salvaguardas. Mas não sabemos de que forma isso vai mudar porque, por exemplo, o Google Home, que era limitado a alguns comandos de voz, está sendo integrado ao Gemini, a inteligência artificial do Google.”

– Que tipo de orientação devemos dar para crianças entre 9 e 12 anos? Minha filha, que tem quase 12, consegue usar o Gemini para estudar, mas outro dia vi que ela estava pedindo opiniões, como se fosse uma conversa com uma amiga.Ouço relatos de crianças e pais e percebo que muitos acham que estão usando inteligência artificial de forma adequada. Você pergunta para um aluno se ele está copiando ou fazendo as lições com IA e ouve: ‘Eu uso só um pouquinho, na medida certa’. Ou ainda: ‘Meu filho usa, mas de um jeito positivo’. Muitas vezes, as pessoas não sabem exatamente quais são os usos positivos. Especialmente as crianças. Precisamos explicar a elas que aquilo não é humano, é só um software que simula um humano. E que os sentimentos que aquela entidade manifesta não são reais, são simulados. Mas isso não basta: é preciso explicar como funciona, dar exemplos de interações saudáveis e não saudáveis e ensinar como operam os algoritmos e os modelos de linguagem. É importante dizer às crianças e adolescentes que toda vez que você não faz uma tarefa e pede para um chatbot fazer, está perdendo uma oportunidade de aprender. E isso pode ter consequências ao longo da vida. ‘Se você quer ser um bom jogador de futebol, tem que jogar futebol. Não pode só assistir’: isso é algo que a criança ou o adolescente facilmente entendem.”

– A IA vai prejudicar o desenvolvimento intelectual desta e das próximas gerações?Vai depender muito de como será o desenvolvimento dessa tecnologia: se vamos criar legislação, controles e outras formas de uso na escola. Mas sabemos que o aprendizado exige que você faça determinada tarefa, porque é no fazer que você percebe a sua limitação, refina as suas soluções e entende o que deu errado. A IA, da forma que é configurada nos modelos de fronteira (os mais avançados disponíveis), faz o trabalho por você. Quando uma criança procura no Google, copia e cola, altera o texto e escreve as partes que faltam, ainda há esforço. Só que agora a inteligência artificial consegue fazer o trabalho pela pessoa, basta pedir. É muito diferente um adulto usar essas ferramentas para otimizar o próprio trabalho, pois ele já passou pela escola, sabe fazer aquelas tarefas e revisar o que sai da inteligência artificial. Para a criança, que ainda está aprendendo, as lacunas podem começar a se acumular. Se usada de forma positiva, a IA pode ajudar a fazer coisas fantásticas. Tenho um sobrinho de 9 anos que já programa e faz robótica. Quando ele não sabe o código para que o robô execute alguma coisa, pede ajuda à inteligência artificial para melhorar o código que escreveu. Isso é muito diferente de pegar uma lição de casa de matemática e pedir para a IA fazer. Se não nos mexermos, o prejuízo pode ser muito grande. Meus colegas professores universitários relatam casos de alunos que, para evitar atritos em trabalhos em grupo, perguntam à inteligência artificial qual tema devem escolher, algo que antes exigia discussão e acordo entre eles. Isso está indo muito além do que imaginávamos e pode trazer prejuízos sérios.” As informações são do jornal O Globo.

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