Domingo, 08 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 30 de janeiro de 2021
Em 2020, o Ministério Público do Trabalho resgatou quase mil pessoas em situação de escravidão no Brasil. A maioria dos casos de trabalho escravo no Brasil se concentra no campo. Mas essa vergonha nacional também mora na cidade. Autoridades de fiscalização têm notado uma tendência preocupante de aumento dos casos de trabalho doméstico análogo à escravidão.
“‘Eu peguei para criar, trouxe do Nordeste. Essa frase a gente ouve muito’. Afirmação falsa que traduz um sentimento de coisificação do trabalho. Você utilizar um ser humano sob argumento que é educar, fazer qualificação para o trabalho, mas, na verdade, submeter a condições análogas à escravidão. É uma falácia”, afirma Alberto Balazeiro, procurador-geral do Ministério Público do Trabalho.
Uma força-tarefa de cinco órgãos públicos atuou em 23 estados, e resgatou 145 vítimas de trabalho escravo. Fazendas, garimpos, carvoarias, oficinas de costura: lugares bem diferentes submetendo trabalhadores a condições parecidas de abandono e degradação.
O trabalho escravo doméstico é o mais difícil de ser investigado e descoberto. São os casos em que a exploração de seres humanos acontece atrás de altos muros e portões fechados. No bairro da Abolição, na Zona Norte do Rio, as autoridades encontraram uma empregada doméstica que trabalhava há 41 anos sem receber salários.
Um quarto sem luz nos fundos da casa, um colchão, uma caixa servindo de armário. Uma vida confinada em pequenos espaços. A mulher de 63 anos trabalhava para a mesma família desde os 22 anos de idade. Segundo as autoridades, ela nunca teve direito a férias, e trabalhava em tempo integral. Os agentes federais disseram que os patrões até sacaram o auxílio emergencial da empregada, e não entregaram a ela o dinheiro.
Também na Zona Norte do Rio, a mesma força-tarefa encontrou um caso bem parecido no bairro de Vila Isabel. Em 2020, Madalena foi resgada em um apartamento em Minas Gerais. A mulher de 46 anos de idade vivia, desde os oito, reclusa e sem salários. Casos com muitos pontos em comum. “Falta de acesso à comida, falta de acesso à água potável, condições de dormir. Todo um conjunto de violações graves das condições que a gente considera mínima”, diz afirma Alberto Balazeiro.
A historiadora e antropóloga Lilia Schwarz, professora da USP, encontra na escravidão as raízes de um pensamento capaz de normalizar o absurdo. “A ideia de que o ‘familismo’, ou seja, o fato de elas estarem sempre próximas, unidas à família, fazem com que elas não tenham direito. Não. Tem que ser o contrário. É porque elas são tão próximas é preciso que nós a protejamos com todo tipo de direitos. Essa é uma linguagem perversa, uma linguagem que vem da escravidão doméstica”, afirma Lilia. A história de um país que no século XXI encontra trabalho escravo no bairro da Abolição.
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