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Mundo Redes na internet aliciam jovens para lutar na Ucrânia: promessas falsas levam cada vez mais brasileiros à guerra

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Desde o início da guerra, brasileiros têm ido lutar de um lado ou de outro do conflito. (Foto: Reprodução)

Clarice de Almeida ainda não consegue entender por que diabos seu filho decidiu ir para a Ucrânia lutar uma guerra tão distante de sua Rubinea, a cidadezinha de pouco menos de 4 mil habitantes na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul na qual ela nasceu e foi criada. Felipe tinha 26 anos, trabalhava em uma das tantas usinas de cana-de-açúcar espalhadas pelo interior paulista e parecia feliz com o salário de R$ 2,5 mil e os mimos da mãe. Um dia, como que do nada, Felipe disse que estava indo para Madri, na Espanha, passar férias. Ia ser só uma semana.

“Mas aí ele disse que gastou dinheiro demais, que ele tinha arrumado um emprego numa fazenda de grãos, que a vida ia melhorar e ele ia ficar mais um tempo lá” conta Clarice, uma cabeleireira de 55 anos com a vida em suspenso desde a partida do filho.

Mas era tudo mentira. Felipe saiu do interior de São Paulo para fazer um caminho que mais e mais brasileiros têm feito nestes últimos dois anos. Sem experiência militar, foi recrutado por uma rede organizada de aliciadores financiados pelo Exército ucraniano para se tornar um soldado na guerra que a Ucrânia trava com a Rússia há quase cinco anos.

Chegou ao país europeu no dia 22 de novembro do ano passado com a promessa de ganhar R$ 25 mil ao mês, receber treinamento especializado e operar na retaguarda da guerra. Também era tudo mentira. Antes de 2025 terminar, Felipe estava morto. Caiu em uma das frentes de batalha onde russos e ucranianos lutam uma guerra de trincheiras brutal. Seu corpo jamais foi recuperado.

“Meu filho era um inocente, um menino do interior, e o convenceram a ir para lá”, conta Clarice, que jamais teve a chance de pedir para o filho desistir da empreitada militar, e só ficou sabendo que Felipe estava na guerra quando perdeu o contato com ele. “Só acreditei quando me mostraram a foto dele fardado. Era ele mesmo, estava na guerra.”

Entre a descoberta de que o filho havia ido lutar e sua morte mal se passaram duas semanas. Quando disseram que Felipe estava morto, Clarice também não acreditou. Mas aí vieram as fotos de Felipe já sem vida jogado em um bunker, os relatos, as confirmações. A verdade se impôs de forma crua.Eu sei que já não há mais o corpo dele, me disseram que os bichos comeram, mas eu quero ele aqui, nem que sejam só os ossos. Quero trazer meu filho para casa.”

Histórias como a de Clarice têm se tornado cada vez mais comuns. Ela integra um grupo crescente de famílias brasileiras que tentam entender o que tem levado seus entes queridos a cruzar o mundo para lutar na guerra mais letal da atualidade, com dezenas de milhares de pessoas perdendo a vida mês a mês nas estepes ucranianas. Unidas, essas famílias têm investigado, perguntado, questionado o que faz do Brasil um dos principais fornecedores de soldados para o conflito russo-ucraniano.

Aos poucos, começaram a identificar uma bem organizada, bem estruturada e bem coordenada rede de recrutadores e aliciadores financiados pelos governos da Ucrânia, e, em menor parte, da Rússia, para atrair jovens brasileiros a lutar na guerra. Uma rede com ramificações importantes em diversos países latino-americanos.

Esse não é um movimento novo. Desde o início da guerra, brasileiros têm ido lutar de um lado ou de outro do conflito. Mas nunca numa escala sequer parecida com o que tem acontecido neste ano, quando explodiu o número de brasileiros mortos e desaparecidos em combate. O recrutamento e aliciamento têm crescido de forma tão acelerada que o governo brasileiro já faz comunicados oficiais aos dois países na tentativa de desencorajar a busca de cidadãos do Brasil para atuarem como mercenários.

Não se sabe ao certo quantos brasileiros estão lutando nessa guerra que já deixou centenas de milhares de mortos. Nem a Rússia nem a Ucrânia divulgam esses números. Mas as estimativas dão conta de que centenas deles — provavelmente mais de 1 mil — estejam combatendo pelas Forças Armadas da Ucrânia, enquanto algumas dezenas estariam no lado russo. O acelerado crescimento no número de mortos e desaparecidos dos últimos dois anos ajuda a dar uma ideia de como esse movimento avança.

Enquanto em 2024 o Itamaraty registrou cinco mortos e cinco desaparecidos, em 2025 estes números pularam para 13 mortos e 30 desaparecidos — dos quais dois morreram e seis foram registrados como desaparecidos lutando pela Rússia. Até agosto deste ano, 67 brasileiros estavam desaparecidos no campo de batalha (63 na Ucrânia e 4 na Rússia) e outros 14 tiveram a morte reconhecida, todos do lado ucraniano. Ao todo, entre 2024 e agosto de 2026, 102 brasileiros estão desaparecidos em combate e outros 38 tiveram suas mortes confirmadas.

Na maior parte dos casos acompanhados pelas famílias, combatentes oficialmente classificados como desaparecidos são considerados mortos por parentes que receberam relatos, fotografias ou informações de companheiros de batalha, mas cujos corpos nunca foram recuperados.

A explosão do número de brasileiros mortos e desaparecidos é resultado de uma estratégia de sucesso na construção de uma rede de recrutadores que atua tanto no território da Ucrânia e da Rússia quanto no território brasileiro. Segundo relatos de familiares, soldados e ex-soldados, recrutadores oferecem passagens aéreas a brasileiros interessados em lutar, documentos para facilitar a entrada em países europeus do Espaço Schengen, hospedagem na fronteira com a Ucrânia e transporte da Polônia ou da Hungria até cidades ucranianas. Em muitos casos acompanhados pelas famílias, esses custos são bancados pelos próprios recrutadores ou pelas estruturas às quais estão ligados.

Nas redes sociais, páginas de recrutadores infestam o Instagram, o TikTok e o Facebook. Perfis de soldados brasileiros mostram as ações em combate, fazem relatos animadores sobre a guerra e oferecem dicas de como os brasileiros podem se alistar e conseguir a passagem gratuita se estiverem com dificuldades financeiras.

Recrutadores “oficiais”, que se declaram ligados diretamente ao governo ucraniano, também são figurinhas fáceis nas redes. Soldados brasileiros que lutam na Ucrânia afirmam que eles recebem bônus em seus pagamentos e não precisam ir para a linha de frente. Sergey, nome de guerra de um soldado brasileiro, aparece em postagens do serviço oficial de recrutamento do governo ucraniano falando de suas experiências na guerra e dando conselhos a brasileiros interessados em ir lutar no país. Ele, no entanto, diz não ser um recrutador. “Fiz esse vídeo em uma base de recrutamento enquanto estava esperando para assinar um contrato, me pediram e eu fiz, mas nunca operei como recrutador.” As informações são do jornal O Globo.

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