Quinta-feira, 09 de Abril de 2020

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Ciência Saiba como um coquetel de vírus salvou adolescente com 99% de chances de morrer

Os médicos disseram que Isabelle Carnell-Holdaway, de 17 anos, tinha 1% de chances de sobreviver. (Foto: Reprodução)

Um coquetel experimental, com três tipos de diferentes de vírus, salvou a vida de uma adolescente britânica que enfrentava uma infecção que parecia não ter tratamento e a levaria à morte.

O corpo de Isabelle Carnell-Holdaway, de 17 anos, estava sendo atacado por uma bactéria tão agressiva que, na avaliação dos médicos, a jovem tinha menos de 1% de chances de sobreviver.

Foi quando a equipe do Hospital Great Ormond Street, uma clínica infantil localizada no norte de Londres, concordou em experimentar um tratamento que ainda não tinha sido testado. Era um tipo de fagoterapia, processo no qual vírus são usados para infectar e matar bactérias.

Com o tratamento bem sucedido, Isabelle está, agora, tentando levar uma vida normal. Está aprendendo a dirigir e estudando para os A-levels, uma espécie de Enem do Reino Unido.

Especialistas ficaram animados com o resultado do tratamento e dizem que outras infecções graves podem ser tratadas com fagoterapia.

O que são fagos

Fagos representam a incorporação microbiana do ditado “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Os fagos, também conhecidos como bacteriófagos, são um tipo de vírus de ocorrência natural que infecta apenas bactérias.

Como se fossem estranhos alienígenas, eles pousam na superfície de uma bactéria e injetam seu próprio código genético.

Por que Isabelle precisava desses vírus?

Isabelle nasceu com fibrose cística, uma doença genética que compromete o funcionamento das glândulas exócrinas. No caso dela, a doença produzia um muco espesso no pulmão, aumentando a propensão a infecções bacterianas.

Uma bactéria parente da que causa tuberculose, a Mycobacterium abscessus, contaminou o corpo da dela, forçando-a tomar um antibiótico potente. Quando tinha 16 anos, a bactéria ainda resistia e os médicos disseram que seria preciso um transplante duplo de pulmão.

Quando ela começou a tomar drogas imunossupressoras para evitar a rejeição do transplante, a infecção voltou.

A médica dela, Helen Spencer, diz que pacientes transplantados que experimentam a volta da bactéria Mycobacterium abscessus têm poucas chances de viver. “Pela nossa experiência, todos morreram. Para alguns pacientes, acontece em um ano, apesar do tratamento agressivo.”

Isabelle tinha lesões grandes, escuras e purulentas se formando na pele onde a infecção estava tomando conta. Foi parar numa unidade de tratamento intensivo, onde o funcionamento do fígado começou a ficar comprometido com o aparecimento de uma grande colônia de bactérias.

Os médicos diziam que não havia o que fazer.

Os pais decidiram levá-la para casa, para ficar junto à família.

De onde veio a terapia experimental

A ideia de experimentar a fagoterapia foi da mãe de Isabelle, Jo, que começou a pesquisar alternativas para a filha.

A equipe do hospital londrino procurou o professor Graham Hatfull, do Instituto Médico Howard Hughes, dos EUA, que mantém uma das maiores coleções de bacteriófagos. São mais de 15 mil frascos de fagos.

Foram meses de testes para saber qual a combinação de fagos poderia ser usada no caso de Isabelle. Foram selecionados três, dois deles geneticamente modificados na tentativa de fazê-los ser mais eficientes.

O medicamento feito a partir desses fagos passou a ser injetado na corrente sanguínea duas vezes ao dia e aplicado às lesões na pele de Isabelle, de acordo com a revista acadêmica Nature Medicine.

Os resultados

A mãe da adolescente percebeu a diferença em poucas semanas. Jo não tem dúvida: os vírus salvaram a vida da filha dela. As lesões começaram a sarar e algumas feridas que estavam abertas havia meses cicatrizaram.

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