Quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 17 de julho de 2023
Bilhões de euros em investimentos, promessas de um acordo de comércio e palavras de união – tudo para recuperar o tempo perdido. Essa tem sido a tônica dos anúncios da Europa nesta semana durante a cúpula de líderes de União Europeia e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que acontece em Bruxelas.
A Comissão Europeia anunciou nessa segunda-feira (17) que a América Latina vai receber 45 bilhões de euros (mais de R$ 240 bilhões) nos próximos quatro anos como parte do Global Gateway – o programa europeu de investimentos em projetos sustentáveis em diversos setores, como saúde, educação e tecnologia.
Os europeus também têm pressa para finalizar o acordo comercial com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) – que está sendo negociado desde 1999. Em Bruxelas, Pedro Sánchez, presidente da Espanha (país que ocupa atualmente a presidência rotatória da União Europeia), disse que existe uma “janela de oportunidade” agora para se fechar o acordo até o final do ano.
Mas por que a Europa tem tanta pressa e oferece tantas “benesses” ao continente agora? Segundo fontes do Itamaraty, especialistas internacionais e até mesmo algumas das autoridades europeias, três pontos explicam o afã europeu em se aproximar do Brasil e dos demais países da região neste momento: a crescente influência da China na América Latina, a rivalidade com a Rússia no cenário internacional e a sensação que a Europa perdeu muito tempo ao longo das últimas décadas.
A própria presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, ao anunciar o investimento maciço na América Latina nessa segunda-feira, reconheceu esses motivos.
“A América Latina, o Caribe e a Europa precisam uns dos outros mais do que nunca. O mundo no qual vivemos é mais competitivo, mais conflituoso do que antes, ainda se recuperando do impacto da pandemia de covid. O mundo está sofrendo o impacto duro da agressão da Rússia à Ucrânia. E tudo isso acontece com o pano de fundo do crescimento da ascendência da China no exterior”, disse a presidente da Comissão Europeia.
A cúpula entre União Europeia, América Latina e Caribe não acontecia desde 2015 – e foi relançada em um momento em que os europeus tentam trazer o continente de volta à sua esfera de influência.
“Hoje marca um novo começo para uma velha amizade”, disse Von Der Leyen.
Analistas dizem que a aproximação com a América Latina — o que inclui o acordo comercial com o Mercosul — se tornou uma das prioridades da gestão de Von Der Leyen na União Europeia. Neste ano, ela já visitou Brasil, Argentina, México e Chile.
O próprio programa de investimentos da Europa — o Global Gateway — é visto como uma resposta europeia ao ambicioso plano de investimentos da China — conhecido como “Nova Rota da Seda”. Nos últimos dez anos, através desse programa, a China despejou bilhões em projetos de infraestrutura principalmente em países da América Latina, Ásia e África.
A Nova Rota da Seda construiu rodovias, ferrovias e portos no exterior e aumentou a influência de Pequim em mais de 140 países.
Mas o movimento da Europa de reaproximação com a América Latina não tem sido sempre fácil.
A União Europeia está no processo de finalizar três acordos de livre comércio na região — um com Chile, um com México e um com Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai).
Tanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, como o presidente rotativo do Conselho da União, Pedro Sánchez (Espanha), disseram que a prioridade é aprovar esses acordos até o final do ano.
Mas, no caso do Mercosul, ainda há muitos obstáculos no caminho.
Países como França, Irlanda, Holanda e Áustria tentam introduzir mecanismos no acordo que inviabilizem negócios com países que desmatarem suas florestas. Ao discursar na Cúpula em Bruxelas na segunda-feira, Lula disse que esse tipo de cláusula soa como “ameaças”.
“A conclusão do Acordo Mercosul-União Europeia é uma prioridade e deve estar baseada na confiança mútua, e não em ameaças. A defesa de valores ambientais, que todos compartilhamos, não pode ser desculpa para o protecionismo”, disse Lula.
Analistas e fontes do Itamaraty acreditam que o momento é propício para avanços nas negociações. A “janela de oportunidade” se estende até junho de 2024, quando a Europa realizará eleições para o Parlamento do bloco.
Depois disso, é difícil prever se a União Europeia aprovaria o acordo, já que isso dependeria do perfil dos novos parlamentares e da nova composição da casa.
Outro ponto que tem causado certo atrito nas relações com os latino-americanos — e com o Brasil em especial — é a Rússia.
A União Europeia, junto com Estados Unidos e Reino Unido, vem impondo sanções pesadas à Rússia desde a invasão da Ucrânia no ano passado.
Diplomatas em Bruxelas relatam que há dificuldades para se chegar a um consenso sobre como tratar do tema na declaração final da cúpula, que termina nesta terça-feira. As informações são da BBC News.
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