Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020

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Brasil Saiba por que os números de casos e mortes por coronavírus no Brasil podem estar longe da realidade

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Oficialmente, mais de 65 mil pessoas já morreram em decorrência da Covid-19. (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

As estatísticas oficiais afirmam que mais de 1,6 milhão de brasileiros já contraíram o coronavírus, e que mais de 65 mil morreram em decorrência de Covid-19.

Três levantamentos divulgados diariamente no Brasil têm tentado dar a fotografia da pior pandemia do século 21. O primeiro deles é o portal Painel Coronavírus, do governo federal. Os outros dois são iniciativas das secretarias estaduais de Saúde e de um consórcio de órgãos de imprensa — ambas lançadas em meados de junho, quando o governo federal interrompeu a divulgação de dados por alguns dias, provocando dúvidas de diversos especialistas sobre a veracidade dos números que vinham do Ministério da Saúde.

Um mês após a polêmica, os três portais têm apresentado estatísticas razoavelmente parecidas, com apenas pequenas discrepâncias.

Mas, mesmo assim, ainda existem muitas dúvidas sobre a confiabilidade desses números — devido a uma série de deficiências na forma como os casos e as mortes são contabilizados.

Essas imperfeições elevam consideravelmente o risco de os números oficiais sobre infectados e mortos por Covid-19, tanto no Brasil como no resto do mundo, estarem subestimados. Em outras palavras, podem estar pintando um quadro distorcido da realidade.

Um estudo do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, estima que o Brasil poderia estar próximo de atingir a marca de 9 milhões de pessoas com Covid-19 — sugerindo que pode haver uma margem de erro de até 500% nas estatísticas oficiais.

Os pesquisadores partem da noção de que não há testes suficientes feitos no Brasil para se determinar o número de infectados com o Sars-Cov-2, o vírus causador da Covid-19.

Assim, eles usam dados da Coreia do Sul — país com um dos melhores sistemas de exames de Covid-19 do mundo — para calcular a taxa de letalidade da doença, que é a quantidade de pessoas que morrem em proporção à quantidade que fica doente.

Demógrafos e cientistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem não acreditar que exista um esforço intencional do País de subnotificar os casos, mas que diversos problemas do País — alguns deles comuns em diversas outras nações que enfrentam a pandemia — dificultam a compreensão da dimensão real da crise do coronavírus.

Mas afinal, quais são esses problemas? Por que é tão difícil estabelecer números precisos sobre casos e mortes por Covid-19 no País?

Digitação e transmissão de dados

Os sistemas para se registrar mortes de Covid-19 foram montados especialmente para a pandemia, sem haver uma padronização entre prefeituras e Estados de como coletar os dados.

Antes da Covid-19, já havia algumas ferramentas para ajudar o Brasil a entender o quão grave é o quadro de doenças respiratórias no País, como o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), do Ministério da Saúde, e o InfoGripe, da Fiocruz. Mas esses sistemas trabalham de forma agregada com os dados, sem conseguir discriminar com precisão quais casos estão ligados a Covid-19.

Qualidade e quantidade de testes

O maior obstáculo para se conhecer os números reais ainda está na testagem de pessoas, não só no número baixo de testes disponíveis, como também na qualidade desses exames.

Mesmo os testes mais confiáveis, os chamados RT-PCR, são limitados, pois detectam apenas pessoas que estão com a doença no momento do exame — e não os recuperados, que deveriam estar na estatística de total de casos.

Há também o risco de o exame não detectar o vírus em pacientes doentes, pois ele pode não estar exatamente na parte do sistema respiratório de onde foi colhida uma amostra.

“O teste do PCR detecta, na melhor das hipóteses, de 70% a 80% dos casos”, diz Márcio Sommer Bittencourt, médico do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do hospital universitário da USP. E existe o problema da quantidade. O Brasil está testando poucas pessoas para Covid-19.

Registro de mortes

A falta de testes prejudica a compreensão sobre o número de casos totais no Brasil. Mas outro número crucial desta pandemia também pode estar sendo subnotificado segundo os cientistas: o de mortes causadas pelo coronavírus.

E para se chegar a uma aproximação razoável da quantidade de mortos da pandemia, não é preciso olhar necessariamente apenas para os números que estão sendo enviados pelas prefeituras e Estados.

Cientistas em diversos países têm preferido observar o “excesso de mortes”. O número de mortos em um determinado país não costuma sofrer variações grandes de um ano para o outro — apesar de haver grandes variações sazonais (julho costuma ser o mês com o maior número de mortes no Brasil).

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