Quarta-feira, 24 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 16 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O Carnaval da Bahia é, por si só, um espetáculo cultural que traduz a alma brasileira. Mas neste sábado (14), o trio do BaianaSystem trouxe algo além da música e da energia contagiante: um projeto piloto de sustentabilidade que pode servir de exemplo para o futuro das grandes festas populares. O chamado “Desfile Sustentável”, fruto da parceria entre a Prefeitura de Salvador, o Conselho Britânico e diversas secretarias municipais, mostrou que é possível alinhar celebração, economia circular, descarbonização e justiça social em um mesmo espaço.
Entre as medidas, destacou-se a contratação de uma cooperativa com 30 pessoas para recolher resíduos deixados pelos foliões durante a passagem do trio. Essa ação não apenas reduziu o impacto ambiental, mas também gerou oportunidade de renda para trabalhadores que historicamente atuam de forma invisível na cadeia de reciclagem. Outro gesto simbólico foi a compra do azeite de dendê utilizado pelas baianas de acarajé, adquirido por R$ 50 o litro — valor acima do mercado — para evitar o descarte irregular e valorizar a tradição gastronômica.
Essas iniciativas dialogam diretamente com os princípios da economia circular, que busca prolongar o ciclo de vida dos materiais, reduzir desperdícios e reinserir recursos na cadeia produtiva. No contexto do Carnaval, isso significa transformar toneladas de resíduos em insumos reaproveitados, em vez de deixá-los como passivo ambiental.
Outros exemplos pelo Brasil reforçam essa tendência. No Rio de Janeiro e em São Paulo, blocos sustentáveis já utilizam bicicletas para gerar energia, reaproveitam tecidos e fantasias e até buscam certificação de carbono zero. Em Salvador, a prefeitura lançou o portal Carnaval Sustentável 2026, reunindo dados em tempo real sobre ações ambientais e climáticas, consolidando a cidade como referência em grandes eventos sustentáveis.
Essas práticas não são apenas gestos isolados: elas se conectam às metas climáticas globais e ao esforço de descarbonização. Grandes festas populares, como o Carnaval, concentram milhões de pessoas e geram impactos ambientais significativos. Reduzir emissões, incentivar o consumo consciente e promover o descarte adequado são passos essenciais para que o Brasil cumpra seus compromissos internacionais de redução de gases de efeito estufa.
Mas há um ponto crucial: educação para o consumo e descarte consciente. Não basta que governos e organizações implementem projetos sustentáveis; é preciso que cada folião entenda seu papel. O glitter que cai no chão, a latinha descartada de forma incorreta ou a fantasia jogada fora após um único uso são símbolos de uma cultura de desperdício que precisa ser revista. A festa pode continuar vibrante e colorida, mas com escolhas mais responsáveis.
A justiça social também se entrelaça nesse debate. Catadores e cooperativas, muitas vezes marginalizados, encontram no Carnaval uma oportunidade de trabalho digno e reconhecimento. Ao integrar esses trabalhadores em projetos oficiais, como o Desfile Sustentável, o poder público não apenas reduz impactos ambientais, mas também promove inclusão social.
O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do Brasil, e justamente por isso deve ser palco de transformação. Se conseguimos testar soluções sustentáveis em uma festa que mobiliza milhões de pessoas, podemos replicar essas práticas em outros setores da economia e da vida urbana. A lógica da economia circular aplicada ao Carnaval mostra que tradição e inovação podem caminhar juntas.
Em conclusão, Salvador deu um passo importante ao mostrar que celebrar não precisa significar destruir. O Desfile Sustentável do BaianaSystem é mais do que um projeto piloto: é um manifesto de que a cultura pode ser aliada da transição energética, da descarbonização e da justiça social. O desafio agora é ampliar essas práticas, educar a população e transformar o Carnaval em um laboratório vivo de sustentabilidade. Afinal, se conseguimos reinventar a maior festa popular do Brasil, também podemos reinventar nossa relação com o planeta.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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