Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 26 de junho de 2021
A economia brasileira vai perder um importante motor de ajuda ao seu crescimento. Com a escalada da inflação e a sinalização do Banco Central de que novos aumentos da taxa básica de juros (Selic) devem ocorrer, a política monetária deixará de ter um papel no estímulo à atividade econômica.
No cenário dos economistas, uma das explicações para a redução no ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) deste para o próximo ano vem justamente do aumento da Selic.
No relatório Focus, do Banco Central, que colhe a estimativa dos analistas semanalmente, os economistas consultados estimam que a taxa básica de juros deve encerrar este ano em 6,5%, acima dos atuais 4,25%, e vai permanecer neste patamar ao longo de 2022. Já as projeções para o PIB estão em 5% e 2,1%, respectivamente. Portanto, trata-se de uma boa desaceleração de um ano para o outro.
“O aumento da taxa de juros vai tendo um efeito gradual sobre a atividade econômica, principalmente no mercado de crédito”, afirma Cristiano Oliveira, economista-chefe do banco Fibra.
Juros baixos contribuem para um crédito mais barato, favorecendo, por exemplo, a tomada de recursos para o investimento das empresas e para o consumo das famílias.
Quando a inflação aumenta, como é o cenário atual, o Banco Central utiliza a política monetária – sobe a Selic – para encarecer o custo do crédito e, assim, ‘esfriar’ a economia e, consequentemente, controlar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – no acumulado de 12 meses até maio, a alta é de 8,06%.
Fim do juro neutro
A política monetária deixa de contribuir com a atividade econômica quando o país alcança o chamando juro neutro – aquele que não estimula nem contrai a economia. Esse número varia entre os cálculos dos analistas, mas há um consenso de que essa taxa está próxima do patamar de 6,5%.
“Na nossa conta, se o Banco Central elevar a taxa de juros para 6,5%, ela vai para o patamar que a gente considera de taxa neutra. E o que isso significa? A política monetária não vai estimular nem contrair a atividade”, afirma Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria Tendências.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic subiu de 3,5% para 4,25%, e o BC já indicou que esse aperto monetário vai seguir diante de um quadro inflacionário persistente.
O tom mais duro do Banco Central já tem a ver com a inflação do próximo ano. A preocupação é que as expectativas de 2022 desancorem – a previsão para o IPCA é de 3,78%, segundo o Focus. Para 2021, o Banco Central já admitiu que a inflação deve estourar o teto da meta do governo. O IPCA, segundo projeção do BC, deve encerrar este ano em 5,8% – o teto é de 5,25%.
O próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, reconheceu que a taxa básica de juros terá de subir num nível acima do esperado pelo Focus para o cumprimento da meta de inflação de 2022, que é de 3,5%.
“Quando o Banco Central mostra um compromisso muito forte com a inflação, ele leva as expectativas de agentes econômicos, mercado financeiro, analistas e famílias para um patamar mais baixo”, diz Lucas Vilela, economista do banco Credit Suisse. “E esse canal (de expectativa) tem se mostrado muito relevante nos últimos anos. É um bom mecanismo de ferramenta monetária que o BC vem adotando.”
O Credit Suisse projeta que a Selic deve chegar a 7,25% neste ano e permanecerá neste patamar ao longo de 2022.
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