Sexta-feira, 12 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 16 de novembro de 2020
Em setembro de 2016, o então vice-presidente americano Joe Biden delineou o que imaginava para as relações entre Estados Unidos e América Latina, em conferência do Diálogo Interamericano em Washington. “Acredito que hoje estamos no alvorecer de uma nova era para as pessoas do hemisfério, de nosso hemisfério”, disse. Essa era “não deveria mais ser restringida pela história”. “Não deveríamos hesitar em trabalhar juntos, em sonhar grande.”
A retórica pode ter sido meio carregada demais, mas havia emoção genuína nela. Biden havia passado boa parte do segundo mandato de Barack Obama atuando como representante especial para as Américas. Fez mais de dez viagens à região e conheceu muitos de seus líderes. Sua mensagem sempre foi de parceria, em vez de imposição.
Provavelmente, nenhum outro presidente americano conhecia mais a América Latina ao chegar à Casa Branca. Na teoria, isso poderia prenunciar mais atenção à região e grandes mudanças nas diretrizes políticas para a América Latina, depois de quatro anos de Donald Trump. Cabe, porém, fazer uma grande nota de advertência, antes de examinar o que essas mudanças poderiam significar.
Biden teve uma vitória por margem estreita, em um país altamente polarizado, dividido quase ao meio entre duas metades exasperadas e desconfiadas uma da outra, e se depara com desafios sem precedentes em casa. Um ponto crucial é que aparentemente os democratas não conseguirão o controle do Senado, a menos que isso mude com o segundo turno para decidir as duas cadeiras da Geórgia, no início de janeiro.
Isso restringirá grande parte da agenda doméstica do novo presidente, inclusive os planos para aprovar novos estímulos econômicos, um “New Deal verde” e uma assistência médica pública.
Biden herda crises gêmeas na saúde e na economia, cujos níveis de gravidade não têm precedentes. Em parte por culpa da forma equivocada e instável como Trump lidou com a pandemia, pelo menos 230 mil (e provavelmente mais de 300 mil) americanos morreram de covid-19. A economia, embora esteja em rápida recuperação, terá se contraído mais de 4% neste ano e não voltará a seu patamar pré-pandemia antes de 2022, segundo previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Reconstruir melhor” e tentar se acertar com o Congresso sobre o que isso implicaria precisam ser, de longe, as prioridades de Biden.
Ele terá mais liberdade na política externa do que em casa. Os Estados Unidos provavelmente voltarão a vincular-se ao Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas e à Organização Mundial da Saúde (OMS).
O novo governo acredita no princípio do multilateralismo, o que chegará como um alívio para muitos aliados tratados com desdém por Trump. Uma grande mudança em comparação à era Obama é que Biden e os democratas agora compartilham da desconfiança de Trump em relação à China, embora provavelmente venham a ser menos confrontadores em suas ações.
As diretrizes em relação à América Latina não serão prioridade imediata para o governo e que dificilmente a região verá um retorno automático às políticas da era Obama.
E, assim como os Estados Unidos estão mais divididos e disfuncionais do que há quatro anos, a América Latina também mudou nesses anos, em grande medida para pior. Foi particularmente atingida pela pandemia: lar de 8% da população mundial, a América Latina tem cerca de 30% do total de mortes por covid-19 até agora.
Ao lado da região do euro, as economias dos países da América Latina são as mais afetadas: o Fundo Monetário Internacional prevê contração de 8,1% nas economias latino-americanas como um todo neste ano e uma recuperação de menos da metade disso em 2021.
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