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Carlos Alberto Chiarelli Shangai – O homem que não falava chinês

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A Shangai, historicamente rival de Beijing (numa espécie de disputa pela simbólica medalha de ouro), chegamos num dia cinzento. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O discurso de Ulysses

A Shangai, historicamente rival de Beijing (numa espécie de disputa pela simbólica medalha de ouro), chegamos num dia cinzento. Fabril e febril, baseava sua privilegiada valia no muito que produzia no chão da indústria; no tanto que valorizavam a capacidade de troca.

Por uma linha de marcações destacadas, sempre destacando o pensar, ganhara uma pintura indelével, preservando o estético. Shangai conseguia ser mais um pouco pragmática, respeitando, como queria o poeta, as suas circunstâncias. Fazia o milagre de ser submissa a planos e a projetos, mantendo o charme humano individual. Essa maneira de ser nos fez entender o porquê de tanto orgulho com o made in Shangai.

O ato mais noticiado de nossa visita a Shangai seria, como foi, a outorga ao presidente da Câmara e da Constituinte brasileiras do título de Doutor Honoris Causa. Num belo auditório, o previsto aconteceu. Lotado por 5.000 acadêmicos, a cerimônia foi tão protocolar quanto possível. Afinal, era a concessão do título honorífico pelo Reitor da Universidade de Shangai: uma Universidade com passado e com presente.

Como é do protocolo acadêmico, o Reitor passou a palavra ao novo doutor para que proferisse sua Aula Magna. Foi ali que aconteceu o surrealismo: mix da cultura chinesa com a arte brasileira de improvisar.

Ulysses começou a falar e ficamos surpresos. Nós, os parlamentares, escutávamos um texto em requintado Português; nele, se elogiava a eleição direta, denunciava o absurdo da censura, a artificialidade do multipartidarismo, a defesa de imprensa livre, de um congresso de senadores e deputados eleitos diretamente pelo povo, negando a possibilidade de existir uma democracia sem tais institutos que todos os cidadãos a defenderiam. Encerrou, resguardando a liberdade sindical, e, com grande ênfase, destacou a Constituição brasileira, da qual se disse orgulhoso, namorado e defensor, principalmente pelo que ela dizia em defesa e garantia dos direitos humanos.

Os alunos, os professores, o Reitor aplaudiram o discurso em Chinês (produzido na nossa Embaixada), que o Reitor anunciara como sendo uma “peça de alta valia política” e que, na verdade, era uma coletânea de elogios à China que o Ulysses seguramente não fez.

Mas, como ele não falava e não entendia nada de Chinês, não se preocupou com a fala da professora — oradora — tradutora que, para sua comunicação, estava “passando para o Chinês” o discurso oficial dele, Ulysses, homenageado. Só que o Reitor, os professores, os alunos e as autoridades chinesas convidadas não sabiam nada de Português e ficaram felizes — e gratos — que o Presidente da Constituinte brasileira tivesse urna visão tão completa e tão solidária com a China e da China, já que o lido pela moça podia ser tudo, menos um discurso do Ulysses (mas, como dizia Luigi Pirandello, teatrólogo italiano: “cosiè, si vi pare!”; isto é, “é assim, se te parece!”).

Fizemos um “acordo” com o Embaixador brasileiro, “o estrategista”, garantindo que nada diríamos ao Ulysses, que estava numa felicidade ilimitada e “merecida”, como líder político, com os aplausos. Eu não teria o descuido de permitir que o Reitor (quem manda não falar português!) chegasse ao âmago da operação.

Veja só, se costuma dizer que, para ter êxito nas relações internacionais, é muito importante SER POLIGLOTA; mas é bom estar sempre atento, porque a regra tem exceções.

Carlos Alberto Chiarelli foi ministro da Educação e ministro da Integração Internacional

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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