Domingo, 12 de abril de 2026
Por Edson Bündchen | 30 de setembro de 2021
A palavra, o conceito e o tema liberdade tem ganhado corpo nas discussões que permeiam o debate político atual. Falar em liberdade sempre foi atraente e necessário, e não é de agora que filósofos, intelectuais e curiosos se debruçam sobre o tema, enquanto assomam declarações contraditórias acerca do que verdadeiramente significa ser livre. Tomado de forma descuidada, existe o perigo de encapsular o sentido do vocábulo numa visão egocêntrica, quando, de fato, não existe liberdade sem considerar o outro, a coletividade e o próprio contexto. Ser livre, assim, mais do que poder dizer ou fazer algo, é reconhecer os próprios limites que o conceito encerra, o que justifica e reconhece que exercer a liberdade é trabalhoso, e defendê-la, em tempos de polarização e sectarismo crescentes, para além de trabalhoso, é imperioso. Também não é pertinente falar sobre liberdade sem lembrar que o seu oposto, a tirania, não apenas continua à espreita, como possui um apelo improvável junto àqueles que julgam por demais custoso assumir o destino de suas vidas. Não é surpresa, nesse caso, que a servidão voluntária, originalmente descrita pelo francês Ètienne De La Boétie, em meados do século XVI, como sendo a entrega da nossa autonomia para o controle de outrem, ainda reverbere entre nós, com uma atualidade atordoante.
Por que ainda é necessário que defendamos a liberdade, sendo ela um valor universal que já deveria estar consagrado? O que nos seduz em obedecer? Por que poucos governam milhões e aceitamos bovinamente que nossos destinos sejam decididos muito longe dos nossos olhos e ouvidos? Essas foram e são questões que mantiveram o seu frescor no tempo, embora não vivamos mais sob regimes totalitários, pelo menos não, considerando as eras que precederam o surgimento dos estados modernos. Contudo, a transformação das algemas físicas em digitais, nossas “gaiolas douradas” do consumismo contemporâneo, impõe o mesmo desafio a todos: assumir a autonomia de decidir por nós mesmos. Abrir mão da liberdade, deixar que outros nos governem, sentir conforto na servidão e até prazer na submissão não se explicam, contudo, simplesmente pelo uso da força, pela tradição, pelo hábito, pela religião ou cadeia de poderes. Há um outro decisivo e paradoxal elemento: nossa própria autocondescendência para com a servidão. A angústia da liberdade assusta e leva muitos a amansarem a sua rebeldia na certeza de que um único senhor, seja o Estado ou um tirano qualquer, possa aplacar esse desconforto existencial. Essa fraqueza humana sempre existiu, especialmente na política, conforme a história revela quando Ulisses proclama aos gregos em Tróia: “Não é bom ter vários senhores! Um só seja o Senhor! Um só seja o Rei!
A reflexão sobre os limites da liberdade e os riscos da tirania talvez fosse desnecessária, não estivéssemos presos a nossa própria natureza servil, conjugada com desejos por maior poder de quem já o usufrui. Considerando isso, o perigo da servidão voluntária é escamotear um amor inconfesso pela tirania, o que pavimenta e facilita eventuais sonhos totalitários, mesmo que intempestivos. A tirania se nutre de uma sociedade amorfa, inerte, de cidadãos alienados, indiferentes e acríticos, convertidos em inimigos potenciais de si mesmos. Se as formas do exercício do poder mudaram ao longo do tempo, foi graças ao engenho humano que, a partir das instituições, conseguiu proteger um acordo social possível, por isso mesmo, frágil. Não há garantias perenes, a não ser nossa própria vigilância. A servidão voluntária é a “Sindrome de Estocolmo” social que mais nos ameaça, pois não apenas ignora, como até flerta com o inimigo. A passividade com que hoje cidadãos modernos contemplam discursos autoritários, muitos proferidos por falsos democratas, não apenas avilta a condição de sujeitos que nos cabe na história, mas potencializa, senão incentiva, pendores autoritários latentes, sempre atentos aos impulsos autossabotadores que sugestionam as nossas vontades.
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