Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 7 de setembro de 2021
Até a década de 1990, a Suécia era uma das nações mais seguras da Europa, com uma qualidade de vida invejável e índices de criminalidade extremamente baixos. Hoje, porém, tornou-se “a terra dos tiroteios” no continente: somente neste ano, já são 180 incidentes desse tipo no país escandinavo, muitos deles com mortes – em 2020, foram 366 ocorrências.
Em 2000, a Suécia estava em 18º lugar entre 22 países da Europa em número de mortes per capita em tiroteios. Já em 2015, tornou-se o segundo país europeu onde os disparos são mais frequentes, sendo que naquela época ficava atrás apenas da Croácia.
Dados mais recentes, de 2018, apontam que o país subiu para o topo do ranking em mortes a tiros na Europa, de acordo com relatório do Conselho Nacional Sueco de Prevenção ao Crime, realizado a partir de dados do Eurostat (órgão estatístico europeu).
Em busca de explicações
“É algo intrigante, um enigma para nós que estudamos esse problema”, afirma Klara Hradilova Selin, pesquisadora do Conselho Nacional Sueco de Prevenção ao Crime, em entrevista à rede britânica de comunicação BBC. “Os crimes, de forma geral, não têm aumentado, mas diminuído, mas o número de tiroteios continua aumentando.”
Conforme o Eurostat, a Suécia foi o quinto país da União Europeia em número de roubos por habitante, em média, entre 2016 e 2018. À frente estavam países como Bélgica, França e Espanha. Nesse mesmo período, foram registrados 86 roubos a cada 100 mil habitantes no país escandinavo, acima da média de 70 do bloco europeu.
A Suécia também supera a média anual em assassinatos por arma de fogo: cerca de 4 mortes por 1 milhão de habitantes, acima da média de 1,6 morte por 1 milhão de habitantes.
Um estudo publicado no periódico científico “Jama” em 2018, comparando 195 países considerando o tamanho da população e a proporção de jovens, estimou que a taxa de mortes a tiros da Suécia era de 1,3 a cada 100 mil habitantes; a do Brasil é de 19,4.
No contexto europeu, Suécia foi o único país analisado no estudo do Conselho Nacional Sueco de Prevenção ao Crime em que as mortes por armas-de-fogo aumentaram em comparação com o ano 2000.
A Suécia tem cerca de 10,2 milhões de habitantes, população um pouco maior que a de Pernambuco (9,7 milhões), sétimo Estado mais populoso do Brasil.
O país escandinavo é um dos menos desiguais do mundo, com o 12º maior PIB per capita (quase quatro vezes maior que o brasileiro), leis restritivas ao consumo de drogas e a 21ª maior taxa de armas-de-fogo registradas por habitante (segundo dados da Small Arms Survey).
Aspectos agravantes
De acordo com Klara Hradilova Selin, o aumento dos assassinatos a tiros é bastante complexo de ser explicado, mas há pelo menos três fatores que influenciam a onda desses crimes na Suécia: “A existência de quadrilhas, o tráfico de drogas e a falta de confiança na polícia em subúrbios.”
O estudo do Conselho Nacional Sueco de Prevenção ao Crime observa que oito em cada dez tiroteios estão relacionados ao crime organizado, proporção significativamente maior do que em outros países europeus.
Esse tipo de crime se tornou uma das maiores preocupações dos suecos. Uma pesquisa recente conduzida pelo Instituto Som, da Universidade de Gotemburgo, descobriu que 90% dos suecos defendem penas mais duras para criminosos ligados a gangues.
Os fatores listados pela pesquisadora sueca são semelhantes aos de outros países europeus, mas com consequências diferentes:
“Também há gangues e tráfico de drogas em outros países, como França ou Inglaterra, mas nenhum outro país viu o mesmo aumento de tiroteios que a Suécia. Na Inglaterra e no País de Gales, por exemplo, pode-se dizer que há um tipo semelhante de violência em alta, mas por outro método: assassinatos cometidos com facas”.
Para ela, no entanto, o contexto é parecido: “Acontece em subúrbios ou em áreas mais pobres, as vítimas são jovens e muitas vezes há uma conexão com o tráfico de drogas”. A maioria das mortes por armas-de-fogo na Suécia atingiu homens com idades entre 20 e 29 anos.
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