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Variedades “Talvez seja possível enviar sinais para trás no tempo”, diz físico Brian Greene

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O físico americano Brian Greene, da Universidade Columbia, em palestra. (Foto: Divulgação)

As principais teorias de Albert Einstein já completaram mais de cem anos, mas cientistas que as estudam a fundo ainda podem encontrar novas implicações sobre elas, diz o físico teórico Brian Greene, autor best-seller de “O Universo elegante” e “Até o fim do tempo”. Professor da Universidade Columbia, de Nova York, Greene virá ao Brasil em agosto para uma palestra na Rio Innovation Week, onde vai contar sobre seu trabalho recente derivado da teoria da Relatividade Especial, que revolucionou a física mostrando que o tempo não passa da mesma maneira em todo lugar. Uma estranha conclusão derivada de Einstein, diz o cientista, é que em um universo com características específicas talvez seja possível enviar mensagens para o passado. Em entrevista ao jornal O Globo, Greene fala sobre os principais desafios teóricos de seu campo hoje e da dificuldade para conciliar as teorias do famoso físico alemão com a mecânica da física quântica, que completa um século.

1-O que o senhor apresentará ao público aqui no Rio?

Uma das principais mensagens que levarei é que, mesmo para uma ciência que já existe há mais de cem anos, ainda há novas descobertas à nossa espera. Um trabalho recente que venho desenvolvendo com colegas revisitou a teoria da relatividade especial de Einstein, publicada em 1905, e ainda assim descobrimos algo novo. É algo que Einstein poderia ter feito, mas não fez, e tem a ver com uma estranha possibilidade de que, em certos universos, dentre os quais o nosso pode ser um, talvez seja possível enviar sinais para trás no tempo. Seria possível ter conversas com outras formas de vida sencientes, caso existam. Independentemente da distância, seria possível ter conversas em tempo real. Em outras palavras, existem alguns atalhos na forma como os sinais podem atravessar o cosmo, graças às ideias de Einstein aplicadas em um contexto inovador.

2-Isso tem a ver com o emaranhamento, a chamada ‘ação fantasmagórica à distância’ entre partículas que a física quântica provou?

Surpreendentemente, não. Não tem nada a ver com mecânica quântica. Isso se baseia puramente na física clássica, mas na versão relativística que Einstein apresentou ao mundo em 1905. O próprio Einstein era um tanto cético em relação a certos aspectos da mecânica quântica, particularmente o emaranhamento. Por outro lado, é interessante que se possa obter um fenômeno semelhante semelhante àquela ‘ação fantasmagórica’, só que a partir das próprias ideias de Einstein sobre a relatividade restrita.

3-Esse envio de sinais para o passado implicaria reverter a direção normal do tempo, da qual o senhor escreveu em “O Tecido do Cosmo”?

Não. Eu expliquei em “O Tecido do Cosmo” que as leis da física parecem tratar o futuro e o passado da mesma forma do ponto de vista matemático, apesar de a experiência humana os diferenciar. Nós vivenciamos o futuro e o passado de maneiras muito difrentes. Mas esse fenômeno ao qual me refiro não afeta essa qualidade do tempo. Trata-se, na verdade, de algo que torna possível enviar um sinal ao meio-dia aqui em Nova York e ele pode chegar à estrla Alpha Centauri antes do meio-dia correspondente. Se você assistiu ao filme “De Volta para o Futuro”, pode pensar que isso cria uma situação paradoxal. Será que existe alguma situação em que você impede a si mesmo de enviar o sinal no início e, portanto, torna o sinal inexistente? Mas nós contornamos esses paradoxos para qualquer sinal de ida e volta. Se eu tentar enviar um sinal para o espaço e ele for reenviado para mim, sempre retornará depois que eu o enviar. No entanto, ele pode chegar ao destino para onde eu o enviei antes mesmo de eu enviá-lo.

4-O senhor tem falado recentemente sobre a chamada “interpretação de muitos mundos” na física quântica, a possibilidade de existir outras realidades além daquela que experimentamos. Esse novo fenômeno da Relatividade que vocês descrevem tem algo a ver com isso?

Não, porque esse não é um fenômeno da mecânica quântica. Temos duas situações polarizadas na física atualmente: alguns afirmam que a abordagem de muitos mundos está correta e outros que ela é um completo absurdo, porque, de certa forma, foge da estrutura usual de verificabilidade e testabilidade que exigimos. A meu ver, devemos manter a abordagem de muitos mundos em nosso arsenal de ideias porque, se encontrarmos algum fenômeno que não possamos explicar com uma abordagem de “mundo único”, podemos abrir esse arsenal para tentar avançar. Já existem dados que alguns físicos consideram se encaixarem nesse paradigma: as medições da chamada energia escura associada à expansão acelerada do Universo. O valor numérico da energia escura é um número tão incrivelmente pequeno, que alguns acham que nunca conseguiremos explicá-lo com a abordagem de um único Universo. Numa abordagem em que diferentes universos têm diferentes valores dessa energia escura, porém, se tivermos universos suficientes, é praticamente garantido que haverá alguns deles com o minúsculo valor que medimos.

5-A interpretação de muitos mundos é adotada por algumas pessoas como prova física da espiritualidade. O que o senhor acha do uso da mecânica quântica para justificar crenças místicas ou religiosas?

De modo geral, acho perturbador, mas preciso descrever minha reação com mais nuance, pois sou totalmete aberto a ideias místicas e poéticas que buscam nos ajudar a compreender quem somos. Qual é o sentido da vida? Como podemos compreender nossa própria mortalidade? Essas são questões humanas profundas, e estou totalmente aberto a todo tipo de ideia — incluindo literatura e misticismo — para tentar lidar com nossa situação. Ao mesmo tempo, quando alguém tenta invocar a física quântica como se fosse base subjacente dessas ideias, na maior parte dos casos acho absurdo. Me ressinto profundamente quando algum argumento, geralmente falacioso, é apresentado como evidência de que a física quântica implica essas ideias místicas.

6-A física teórica tem uma interface muito importante com a filosofia. Ao desenvolver novas ideias, importa para os físicos saber quando se está em território da física e quando está pisando no campo da filosofia?

No dia a dia, provavelmente não muito. No nosso trabalho diário, nos sentamos à mesa com papel e lápis para fazer cálculos. Ficamos diante da lousa com nossos colegas, rabiscando ideias que tentamos encapsular matematicamente e analisar suas possíveis implicações. Mas, em uma perspectiva mais ampla, acredito que as implicações filosóficas para a física sejam absolutamente vitais e profundas. É possível conseguir algum progresso tentando responder a questões filosóficas só pela experiência humana, mas a experiência humana pode ser um guia enganoso sobre o funcionamento real do mundo. Por exemplo, adoro conversar com meus alunos sobre o livre-arbítrio, uma ideia que muitos filósofos ainda têm debatido. A física não oferece uma resposta definitiva, mas, para mim, inclina a balança decisivamente na direção de que não temos livre-arbítrio.

Quando observamos a natureza do tempo, essa é uma questão filosófica, porque tudo com o que fazemos ocorre ao longo de um determinado período de tempo. Não podemos sequer interagir com o mundo se não estivermos, de alguma forma, interagindo com o fenômeno do tempo. Mas Einstein nos ensinou que o tempo não é o que pensamos com base na experiência humana. Ele disse que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, por mais persistente que seja. Essa é uma afirmação profundamente filosófica, mas Einstein chegou a essa conclusão a partir de suas percepções sobre a Relatividade Restrita e Geral.

Eu acredito que pode haver um diálogo muito profundo entre filosofia e física, mas essa é uma conversa que nem todos os físicos estão dispostos a ter. Alguns encaram a filosofia como algo que só interessa a quem não domina a matemática. Isso é uma forma muito infeliz de ver o mundo, porque há um diálogo muito enriquecedor que surge quando as pessoas estão abertas a cruzar as fronteiras disciplinares.

7-O senhor escreveu sobre o problema da direção do tempo em “O Tecido do Cosmo” há mais de 20 anos. Houve algum progresso desde então na questão de por que estamos caminhando para o futuro e não para o passado?

Algumas ideias interessantes foram apresentadas. Talvez as mais surpreendentes sejam as teorias segundo as quais, ao observarmos o Universo como um todo, pode haver uma simetria entre futuro e passado: podem existir regiões onde o tempo realmente corre na direção oposta. Mas essas são ideias de vanguarda muito especulativas.

Eu diria que as ideias mais convencionais são muito semelhantes às que abordei em “O Tecido do Cosmo”, onde imaginamos que o Big Bang, se esse for o início de tudo, foi um começo altamente ordenado. A partir dali, passamos a viver a degradação da ordem: o aumento da entropia. Mas nós, seres estruturados e organizados, nos beneficiamos dessa ordem primordial, porque se não houvesse muita ordem no início, não haveria ordem suficiente para sequer existirmos. Essa é uma ideia bela e coerente, mas levanta a questão: por que o Big Bang foi tão ordenado?

Nós físicos temos lutado com essa questão por 20 anos, talvez até mais. Eu já tive vários pensamentos, ideias que anotei e estudei matematicamente, mas nenhuma delas considero realmente convincente. Também não vi nenhuma ideia convincente de outros cientistas para explicar isso. Acho que estamos praticamente na mesma situação de 20 anos atrás.

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