Domingo, 02 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 25 de julho de 2026
Fechar escritório nos Estados Unidos, garimpar novos mercados no exterior e até tentar argumentar com políticos norte-americanos. As empresas brasileiras buscam estratégias para tentar contornar as incertezas geradas pelas tarifas do governo Trump.
A taxa de 25% entrou em vigor na quarta-feira (22) após investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana sobre práticas de comércio consideradas injustas. Já a de 12,5% que passou a valer na sexta (24) e também mira outros parceiros comerciais é resultado de uma investigação sobre falhas no combate à importação de produtos feitos com o uso de trabalho forçado
As taxas afetam itens de diversos setores, incluindo máquinas agrícolas, madeira processada, etanol, papel e vestuário. Segundo cálculos da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), as tarifas de 12,5% atingem o correspondente a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais aos EUA. Para 85,3% dessas vendas, equivalentes a US$ 10,7 bilhões, seus efeitos devem ser cumulativos com as tarifas de 25%, resultando em uma taxa de 37,5%.
Segundo o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria e Comércio), muitos setores estarão sujeitos à taxação acumulada de 37,5%.
“É o caso, por exemplo, de calçados, máquinas, equipamentos, peças, componentes, confecções, químicos, desde que não sejam farmacêuticos. Para esses, infelizmente, a tarifa passa a ser de 37,5%”, disse na noite desta quinta.
Os exportadores brasileiros, de diferentes tamanhos e setores, tentam minorar o impacto das tarifas.
No caso da Weg, multinacional brasileira de equipamentos elétricos, os EUA representam uma parte relevante de seus negócios e o acúmulo das taxas é motivo de preocupação, segundo disse o vice-presidente administrativo André Rodrigues na manhã de quinta, antes da confirmação da nova taxa.
O executivo disse ser difícil estimar um impacto de longo prazo da taxação americana para a companhia. “Mas é certo afirmar que mantendo as tarifas atuais teremos um impacto na margem (consolidada)”, afirmou em teleconferência de apresentação de resultados.
Uma das alternativas que a Weg encontrou para mitigar os efeitos do tarifaço, segundo Rodrigues, foi aumentar a produção no México, reduzindo a parte sob responsabilidade no Brasil. O México é hoje o principal produtor de equipamentos da empresa para os EUA, responsável por 41% dos envios.
A gaúcha Forbal Automotive (de peças e componentes para as indústrias de implementos rodoviários, agrícola e automotiva) tem forte presença em países da América do Sul —como Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Também atua no México e na América Central. Em março de 2025, abriu uma unidade em Tampa, na Flórida, com um centro de distribuição, conta o CEO, Giuliano Santos Policastro.
“Logo no primeiro mês de operação e depois de mais de dois anos de estudos, aconteceu o ‘Liberation Day’ do Trump, em que ele aplicou uma tarifa de 10%. E depois, teve a tarifação em que o nosso produto ficou enquadrado na faixa de 50%.”
Mesmo após a Suprema Corte dos EUA derrubar as tarifas de Trump, em fevereiro, o empresário se antecipou às novas taxações deste ano e resolveu mudar planos. A empresa, que tinha a expectativa de que os EUA se tornassem seu principal mercado, hoje tem no país seu oitavo destino.
“O tarifaço prejudicou a nossa expectativa de receita e fomos obrigados a revisar o planejamento da operação por lá, infelizmente.”
Contratado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e ex-embaixador Roberto Azevêdo afirma que o setor produtivo intensificou sua atuação após a confirmação das tarifas.
Segundo ele, empresas e associações passaram a estudar novos pedidos de exclusão dentro da própria investigação comercial americana, além de reforçar a interlocução com importadores, consumidores e entidades dos Estados Unidos.
O setor calçadista brasileiro, que tem os Estados Unidos como seu principal mercado externo, já revisou para baixo suas projeções de exportação para o ano, de uma queda de 3,6% para 7,1%. O setor agora é alvo de uma tarifa acumulada de 37,5%.
Para o agente de exportação Julio Schreck, da Gateway Intl., que trabalha com empresas dos polos de Franca e do Rio Grande do Sul, a segunda rodada de tarifas é um problema político, não econômico.
Ele defende que os calçados brasileiros sejam colocados na lista de produtos isentos e diz que clientes têm buscado entrar em contato com congressistas norte-americanos para convencê-los. “O Brasil exporta para lá o equivalente a 0,3%. Para eles nós não somos nada.”
O presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, afirma que a medida aumentará a diferença entre as taxas cobradas do Brasil e de outros países fornecedores do produto, como Indonésia e Camboja.
“Perderemos ainda mais mercado para esses concorrentes”, afirmou em comunicado divulgado na quinta.
Apesar do futuro nebuloso pela frente, as empresas do setor estão trabalhando para mitigar os prejuízos. É o que explicou Carlos Filho, diretor comercial da Kissol, à agência de notícias Reuters.
“Por termos um produto de boa qualidade, boa parte desse produto vai para o mercado norte-americano. Mas nós já estamos traçando algumas estratégias para, caso essas tarifas permaneçam, a gente possa continuar trabalhando da melhor forma possível.” (Com informações da Folha de S.Paulo)
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