Segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 9 de agosto de 2026
O medo de se tornar dispensável devido aos avanços da inteligência artificial é compartilhado por milhões de trabalhadores, mas será que as ferramentas de recrutamento baseadas em IA representam uma ameaça específica para mulheres que tentam retornar ao mercado de trabalho?
Embora em muitos casos seja impossível saber se ferramentas de IA desempenharam algum papel na triagem ou na rejeição de candidatos – visto que os empregadores raramente divulgam detalhes de seus processos de recrutamento –, há um receio generalizado de que essas ferramentas estejam prejudicando mulheres de meia-idade.
A força-tarefa Women Pivoting to Digital, de Londres, voltada para mulheres nos setores de serviços financeiros, manifestou preocupação com o uso crescente de IA no recrutamento e seu impacto sobre as mulheres.
A presidente do grupo, Caroline Haines, afirmou que a pesquisa realizada pela força-tarefa revelou uma preocupação significativa de que a IA utilizada para triar candidaturas e currículos não reconhece as competências que muitas mulheres experientes podem oferecer.
Por exemplo, mulheres que se afastaram do trabalho para cuidar dos filhos podem apresentar lacunas em seus currículos que alguns sistemas de triagem baseados em IA poderiam interpretar negativamente.
Em uma perspectiva mais ampla, o grupo de trabalho estima que a IA e a automação poderão eliminar centenas de milhares de empregos ocupados por mulheres até 2035.
Com base em dados do relatório Market and Skills Projections: 2020 to 2035, o grupo estima que, sem investimentos significativos em requalificação, as empresas poderão enfrentar custos de rescisão superiores a 750 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 5,2 bilhões.
Em uma pesquisa recente realizada pelo grupo de trabalho sobre o setor digital com mais de mil mulheres, 68% afirmaram não ter recebido de seus empregadores a oportunidade de requalificação ou de transição para funções na área digital.
Danos
A BBC apurou que algumas empresas sediadas em Londres deixaram de usar ferramentas de IA por receio de vieses em seus processos de recrutamento.
Laura Holden, advogada especializada em IA e fundadora da consultoria jurídica Bonsai AI, afirmou que as empresas muitas vezes não compreendem o funcionamento dessas ferramentas, o que pode causar “danos significativos”.
Ela argumentou que é difícil identificar a existência de vieses porque “há uma falta de regulamentação global que obrigue os fornecedores a demonstrar como suas ferramentas operam”.
Ela citou ferramentas de triagem de currículos e entrevistas avaliadas por IA como exemplos de situações em que vieses podem surgir.
Uma dessas ferramentas, segundo ela, classifica currículos de A a D, incentivando os recrutadores a priorizar candidatos com melhor pontuação. Outras sinalizam fatores como uma lacuna de sete anos na carreira como um ponto de atenção, o que pode influenciar decisões de forma injusta.
Holden observou que os fornecedores se apressam em afirmar que suas ferramentas são seguras e reduzem vieses, ao mesmo tempo em que as desenvolvem e comercializam de maneira a incentivar empregadores a rejeitar um grande número de candidatos com base em pontuações geradas pela IA.
Embora as empresas as descrevam como ferramentas de apoio à decisão, ela afirmou que, frequentemente, elas funcionam como “sistemas de tomada de decisão automatizada”.
Ela defendeu a realização de testes obrigatórios e a implementação de uma regulamentação mais rigorosa antes da adoção de ferramentas de recrutamento baseadas em IA, argumentando que a legislação atual não foi elaborada levando essa tecnologia em consideração.
Lógica falha
Eleanor Drage, pesquisadora sênior da Universidade de Cambridge, afirmou que as preocupações de que a IA possa prejudicar as mulheres em processos de recrutamento são “muito justificadas”.
Ela argumentou que recrutadores humanos têm maior capacidade de reconhecer o valor de candidatos que retornam de pausas na carreira — como a licença-maternidade — e as habilidades transferíveis que eles trazem consigo, qualidades que a IA pode deixar passar despercebidas.
Drage acrescentou que muitos recrutadores não compreendem totalmente o funcionamento dessas ferramentas e afirmou que as empresas deveriam utilizar a IA para avaliar suas próprias práticas de contratação, em vez de avaliar “populações vulneráveis, como mulheres mais velhas que estão retornando ao mercado de trabalho ou pessoas que fizeram uma pausa na carreira”. (As informações são da BBC Brasil)
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