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Colunistas Trabalhar mais ou produzir mais?

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Há uma ideia profundamente enraizada em diversas sociedades de que a prosperidade é fruto direto do esforço físico e das longas jornadas de trabalho. Embora o trabalho seja, sem dúvida, um dos pilares do desenvolvimento humano, os dados mais recentes sobre renda e horas trabalhadas ao redor do mundo sugerem que a relação entre riqueza e dedicação ao trabalho está longe de ser simples. Uma análise mais cuidadosa revela que países com níveis semelhantes de renda podem apresentar padrões bastante distintos de trabalho, indicando que outros fatores desempenham papel decisivo na geração de prosperidade.
O estudo de Gethin e Saez (2025), ao comparar o Produto Interno Bruto por adulto com o número médio de horas trabalhadas por semana em dezenas de países, chega a uma conclusão surpreendente: países com níveis de renda semelhantes podem apresentar jornadas bastante diferentes. Da mesma forma, países que registram mais horas de trabalho por adulto nem sempre são os mais ricos.
Os exemplos são variados. Países como Nigéria, Vietnã e China apresentam médias superiores às observadas em boa parte das economias desenvolvidas. Já Alemanha, Itália e Reino Unido figuram entre as nações mais ricas do planeta, mas registram menos horas trabalhadas por adulto. Os Estados Unidos ocupam uma posição intermediária: altamente prósperos, porém ainda marcados por uma cultura de trabalho mais intensa do que a de muitos de seus parceiros europeus.
O que esses números nos ensinam? Em primeiro lugar, que riqueza não é uma simples função da quantidade de horas trabalhadas. Se fosse assim, as regiões mais pobres do mundo seriam também as mais prósperas, pois muitas delas registram jornadas iguais ou superiores às das economias avançadas. Evidentemente, não é isso que ocorre.
O verdadeiro diferencial está na produtividade. Um trabalhador equipado com tecnologia, educação de qualidade, infraestrutura eficiente e instituições sólidas produz muito mais valor por hora trabalhada do que alguém que não dispõe dessas condições. A prosperidade nasce menos do esforço bruto e mais da capacidade de transformar conhecimento, inovação e organização em resultados econômicos.
Peter Drucker já observava que o grande desafio das economias modernas não é aumentar a quantidade de trabalho, mas elevar a produtividade do trabalhador do conhecimento. Décadas depois, sua reflexão permanece atual. Na era da inteligência artificial, da automação e da digitalização, a vantagem competitiva das nações dependerá cada vez menos da força física e cada vez mais da capacidade de gerar conhecimento e inovação.
Essa constatação traz uma reflexão importante para o Brasil. Nosso debate público frequentemente se concentra na duração da jornada de trabalho, na carga horária ou mesmo na disposição individual para o esforço. Tudo isso é relevante, mas insuficiente. O verdadeiro desafio brasileiro continua sendo a baixa produtividade sistêmica da economia, consequência de gargalos históricos na educação, na infraestrutura, na burocracia, na inovação, na segurança jurídica e na qualidade da gestão pública e privada.
Não é por acaso que milhões de brasileiros trabalham arduamente e, ainda assim, encontram dificuldades para prosperar. O problema não está na falta de esforço. Está no ambiente econômico que impede que esse esforço se transforme em riqueza na mesma velocidade observada em países mais desenvolvidos.
Os dados analisados por Gethin e Saez revelam que o mundo não recompensa necessariamente quem trabalha mais, mas quem produz mais valor. As sociedades que compreenderam essa diferença investiram em ciência, tecnologia, gestão, educação e instituições eficientes. As que continuam apostando exclusivamente no aumento do esforço humano tendem a permanecer presas na armadilha da baixa renda.
Talvez a pergunta mais importante para o século XXI não seja quantas horas trabalhamos, mas quanto valor somos capazes de gerar em cada uma delas. A resposta a essa pergunta ajudará a determinar quais países prosperarão nas próximas décadas e quais continuarão confundindo esforço com desenvolvimento.
(Instagram: @edsonbundchen)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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