Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de setembro de 2018
Coordenador do Sistema Nacional de Museus do Uruguai, o especialista Javier Royer espera que o incêndio no Museu Nacional no Rio de Janeiro, ocorrido no último domingo (2), sirva para fortalecer a importância do papel dessas instituições.
“Espero que a tragédia se transforme em algo permanente e que fortaleça os museus e sua dimensão social, o seu papel na sociedade, a sua pertinência social. O museu não é só para contar o passado; nos dá elementos para interpretar o que está acontecendo agora e para sabermos onde queremos ir”, afirmou o especialista em entrevista à Agência Brasil.
Javier classificou o incêndio no Museu do Rio como uma perda mundial irreparável. “Uma desgraça e um evento terrível para o campo museológico do Brasil, particularmente dadas as características que tinha o museu.”
Reunião Mercosul
Ele adiantou que, na próxima semana, haverá uma reunião do comitê técnico de museus do Mercosul em que participarão quase todos os países da América do Sul. Na ocasião, serão discutidas formas de as nações colaborarem com a reconstrução do museu brasileiro.
“Estamos abertos a colaborar com o que for possível. Na medida em que possam entrar [nos escombros] e avaliar qual é a situação, sobretudo em relação às coleções e o que conseguiram recuperar, é que se definirá como vão reconstruir o museu, como será esse novo projeto”, afirma.
Javier acredita que o Uruguai poderá ceder profissionais e técnicos para contribuir com os trabalhos, mas dificilmente terá condições de apoiar financeiramente o Brasil.
Investimentos
Royer destacou a necessidade de valorização do patrimônio museológico e de investimentos a longo prazo no setor.
“O sistema em que vivemos, com o consumismo e as novidades permanentes, gera certo desapego e a noção de que não é necessário conservar, onde é tudo descartável. Mas há muitas coisas que não são descartáveis. Tem a ver com o que se entende como valioso. E isso é algo que nós, dos museus, temos que trabalhar, pois o patrimônio é parte da memória do mundo”, destacou.
Javier reconhece que nem sempre é possível evitar danos ao patrimônio, mas detalha a experiência do Uruguai que investiu em políticas de prevenção de riscos de origem natural (inundações, queda de árvores, etc) e humana (roubos, vandalismo, depredações).
“Em 2010, quando eu assumi [a coordenação nacional do sistema de museus], não tínhamos nenhum museu com sistema de segurança. Hoje, todos os museus vinculados têm. Estou falando de sensores de fumaça, de incêndio, câmeras de vigilância e sensores contra furto. Foi feito um investimento e seguimos fazendo porque a tecnologia vai mudando e temos que atualizar esses sistemas eletrônicos”, destacou.
Conservação
O especialista destaca que a conservação é o maior desafio para o setor museológico.
“Nunca tivemos, pelo menos nos museus vinculados ao sistema nacional de museus uruguaio, um edifício feito especialmente para ser um museu. Sempre tivemos que adaptar edifícios, muitas vezes históricos, como é o caso do Rio. E esses edifícios, classificados como monumentos históricos, têm restrições quanto a obras – não podemos fazer saídas de emergência com uma porta enorme, corta-fogo. Isso tudo gera dificuldades.”
Museu Nacional e UFRJ: “indissociáveis”
A reitoria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) divulgou uma nota neste final de semana em que afirma que o Museu Nacional é indissociável da universidade e separá-los seria um “ato arbitrário e autoritário contra a autonomia universitária”.
O texto foi divulgado como resposta a “informações que especulam a desvinculação entre o Museu Nacional e a UFRJ”, sem mencionar nenhuma proposta específica. O prédio principal do museu foi destruído por um incêndio entre a noite de domingo (2) e a madrugada de segunda-feira (3), e a maior parte de seu acervo de 20 milhões de itens foi destruído.
A nota explica que o museu é unidade de ensino, extensão e pesquisa da UFRJ e afirma que sua indissociabilidade está prevista no artigo 207 da Constituição.
“Qualquer medida a fim de retirar da UFRJ o Museu Nacional representaria ato arbitrário e autoritário contra a autonomia universitária e a comunidade científica do País. O Museu Nacional não é uma instituição dedicada exclusivamente à guarda de acervo. Além da guarda dessa memória, da cultura do País e do mundo, ali se produz conhecimento, ciência de ponta reconhecida pela Capes com a nota 7, maior índice de avaliação possível para uma instituição acadêmica no Brasil”.
O texto divulgado diz ainda que “o corpo altamente qualificado de docentes, pesquisadores, estudantes e servidores técnico-administrativos em educação jamais poderia se submeter a uma Organização Social ou a qualquer outra instituição que não seja a UFRJ”.
Os comentários estão desativados.