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Economia Um banco cresce seu patrimônio de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões em cinco anos, vendendo ativos que não existiam, construindo uma rede de influência que alcançou os três Poderes – e ninguém viu? Ou ninguém quis ver? Como foi possível?

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O caso Master/Vorcaro é uma história de ações ou omissões em camadas, conscientes ou não. (Foto: Divulgação)

Um banco cresce seu patrimônio de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões em cinco anos, emitindo títulos a 130% do CDI, vendendo ativos que não existiam, construindo uma rede de influência que alcançou os três Poderes – e ninguém viu? Ou ninguém quis ver? Como foi possível?

A pergunta parece ingênua. Não é. Porque a resposta não está apenas nos vilões. Desses eu espero que a Polícia Federal e a Justiça cuidem, com todo o rigor e presteza que a sociedade espera. Está também no sistema que o sustentou – e nos agentes que, diante dessa questão, preferiram alienar-se ou aliar-se.

O caso Master/Vorcaro é uma história de ações ou omissões em camadas, conscientes ou não. O regulador fragmentado viu apenas o seu pedaço: o Banco Central supervisiona instituições; a CVM fiscaliza produtos. O esquema viveu na fresta entre os dois. Não houve conluio, houve divisão de responsabilidade, que produz o mesmo resultado.

O auditor viu o que lhe mostraram: quando a fraude opera por fundos externos e carteiras estruturadas, a auditoria acessa o que a instituição permite. Mas há algo mais grave – num depoimento ao Senado, um especialista admitiu que, apesar de os relatórios chegarem aos reguladores, não eram lidos. E por quê? “Isso eu não sei te responder.” A informação existia. Circulou. E não produziu consequência.

Nesse ambiente, outros incentivos prevaleceram. Os intermediários que distribuíram e os investidores foram oportunistas: CDB a 130% do CDI com garantia do FGC? Por que questionar? O FGC eliminou o risco e socializou o prejuízo, desincentivando a diligência. O político cultivou amizades úteis: a cumplicidade não precisa de acordo explícito. Ela opera pelo silêncio confortável entre aqueles que se reconhecem iguais.

Mas há uma camada ainda mais perturbadora. Não a do regulador que não cruzou os dados, nem a do auditor que viu apenas o que lhe mostraram, nem a dos intermediários que exerceram uma diligência a eles conveniente. Mas sim a daqueles que foram contratados para prestar serviços a preços estratosféricos. Receberam milhões – e, ao que tudo indica, acharam natural. Assinaram o contrato, auferiram os honorários, empenharam o nome e o prestígio. Será que não se fizeram as perguntas óbvias: de onde vem tanto dinheiro, e por que eu? Pessoas inteligentes, formadas, com reputação construída ao longo de décadas. Cada uma com sua justificativa elegante.

A socióloga Diane Vaughan, estudando o desastre do Challenger, cunhou um conceito que ilumina parte do problema com precisão incômoda: a normalização do desvio. Sua conclusão sobre a Nasa cabe aqui palavra por palavra: nenhuma decisão fundamental foi tomada para fazer o mal. Uma série de decisões aparentemente inofensivas foi tomada, que incrementalmente moveu aquela organização em direção ao desastre. A cada ciclo sem colapso, se normalizava o desvio. O inaceitável tornou-se inesperado. O inesperado passou a ser esperado. O esperado tornou-se aceito.

Hannah Arendt, cobrindo o julgamento de Eichmann em Jerusalém, chegou a uma conclusão que perturbou o mundo: o mal não precisa de monstros. Ele prospera onde o julgamento individual foi substituído pela lógica do procedimento – do “não é comigo”, do “o jurídico validou”, do “sempre foi assim”. Eichmann “só” cumpria ordens e seguia processos.

O auditor que assina. O distribuidor dos CDBs. O regulador que não cruza os dados. O profissional respeitável que recebe os milhões sem perguntar. Nenhum deles se vê como cúmplice. Cada um está apenas fazendo o seu trabalho – ou recebendo pelo seu talento.

O antídoto para a banalidade do mal, dizia Arendt, não é a lei. É o pensamento. A disposição de parar, questionar, recusar a suspensão confortável do julgamento. O mal não anuncia a sua chegada. Ele se instala no vazio de quem abdicou de pensar. Nas instituições, e nas pessoas, isso tem nomes mais prosaicos: faltou integridade ou coragem, ou as duas. E é exatamente isso que o caso Master demonstra, em cada uma de suas camadas.

Enquanto essas qualidades seguirem em falta – e aqui cabe relembrar a imperiosa necessidade dos exemplos de cima, como ressaltei em coluna anterior – corremos o risco de novos episódios lamentáveis como o caso Master. Aliás, uma nova versão desse tipo de esquema já pode estar silenciosamente em andamento. Por alguém que também não se vê como vilão, cercado por pessoas que também preferem não fazer as perguntas inconvenientes. (Artigo do ex-ministro Pedro Parente, do governo FHC, publicado em O Globo)

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Evandro Carlos
26 de abril de 2026 01:05

Quando é o próprio lobo quem cuida dos cordeiros, quem vai denunciar alguma irregularidade? O importante é que todos os envolvidos serão inocentados. Já esqueceram do q houve com a lava jato? É só um replay.

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