Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 18 de julho de 2018
O universitário Matheus Antonio Fernandes Caldas dos Santos, de 21 anos, afirma que foi torturado e ameaçado de morte enquanto era recruta da FAB (Força Aérea Brasileira), em São Paulo, e pede na Justiça punição para ao menos sete militares, entre soldados, cabos, sargentos e tenente. A Aeronáutica diz apurar o caso.
Os supostos crimes teriam ocorrido em um intervalo de quatro meses, em 2016, dentro da Base Aérea de São Paulo, em Guarulhos, e do 4º Comando Aéreo Regional, também na capital paulista. O jovem afirma que ficou com a capacidade respiratória comprometida, após perder alvéolos pulmonares em decorrência das agressões sofridas.
“Eu tinha a vontade de seguir a carreira do meu avô. Queria ser sargento de infantaria, mas meu sonho acabou depois de toda a violência pela qual eu passei. Nem para o meu pior inimigo eu desejaria isso”, desabafa Matheus. Atualmente estudante de Direito em Santos, no litoral paulista, ele se encorajou para fazer a denúncia.
Um ano após o alistamento militar, ele foi chamado pela Força Aérea para iniciar a carreira, conforme vontade própria. O histórico civil do novo militar era algo que chamava atenção: sem problemas de saúde e chegou a representar o País em disputas internacionais de caratê, esporte que ele conquistou a faixa preta e tornou-se profissional.
“Na base, em Guarulhos, durante uma atividade que envolvia flexão com vários recrutas, nos ameaçaram de nos molhar caso todos não cumprissem as metas. Eu era o xerife [aquele que recebe punição pelos outros]. Em mim, acabaram jogando água congelante pelo meu corpo todo e, em seguida, me obrigaram a dormir molhado.”
No dia seguinte, Matheus relata que acordou com febre e mal estar. Ele afirma ter solicitado ao superior para receber atendimento médico. Não o foi permitido, e o jovem foi obrigado a participar de uma nova atividade física, que foi interrompida após ele desmaiar e ter uma convulsão na frente de todos os colegas e oficiais.
Matheus foi encaminhado ao Hasp (Hospital da Aeronáutica de São Paulo) e, após ser medicado, retornou à base. “Mas, depois disso, eu só piorei. Comecei a vomitar sangue, desmaiei e voltei ao Hasp, mas dessa vez na UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Ligaram para a minha mãe dizendo que eu tinha morrido.”
O jovem permaneceu internado ao longo de uma semana, antes de receber alta para a base militar. “Ainda não estava bem. Voltei e tudo permaneceu da mesma maneira. À noite, eu era acordado ao me jogarem água fria, e me davam choques elétricos com teaser [máquina portátil]. Foram várias vezes. E eu não queria sair de lá.”
O recruta relata que sofreu ameaças de morte do superior direto, logo após algumas das agressões terem sido informadas ao comandante da unidade militar por familiares dele. “Minha mãe conseguiu o telefone do comando pela internet e contou a ele o que estava acontecendo. Ela estava desesperada. Chegaram a dizer a ela que é normal morrer em treinamento.”
A situação forçou a transferência de Matheus Santos para o 4º Comando Aéreo. “Ali, eu era destratado toda hora. Eu já estava sem capacidade respiratória e condição de realizar atividades físicas. Quando os oficiais de comando saíam de perto, oficiais superiores debochavam e me forçavam a situações embaraçosas.”
Matheus acabou dispensado do serviço militar. Para sua surpresa, o documento que o mandava para casa afirmava que a decisão foi por ‘excesso de contingente’. Em exames em um ambulatório de especialidades, ele descobriu, depois, que havia perdido metade dos alvéolos, onde ocorrem as trocas gasosas entre o ar e o sangue nos pulmões.
O jovem tentou seguir a vida, apesar de saber que não tinha mais condições de realizar atividades físicas que necessitassem esforço aeróbico, como voltar a praticar caratê. Santos conseguiu passar no vestibular de uma universidade para cursar Direito, onde relatou aos professores o que havia sofrido nas bases militares, e decidiu agir.
A FAB afirma que aguarda o recebimento do processo para tomar eventuais “medidas administrativas cabíveis”. “O Comando da Aeronáutica não compactua com comportamentos inadequados às suas atividades, assim como repudia agressões ou quaisquer outros atos que denigram a dignidade humana”, declarou.
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