Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 10 de junho de 2018
Berta Zuñiga Cáceres, de 27 anos, lidera há dois anos a luta da população Lenca de Honduras contra empreiteiras, empresas energéticas e instituições financeiras internacionais para deter um projeto de hidrelétrica que represaria um rio considerado sagrado e essencial para a sobrevivência dessa etnia indígena.
É uma luta que já custou a vida da mãe, para quem a jovem agora busca justiça em um país denunciado pela ONG Global Witness como o mais perigoso do mundo para os defensores do meio-ambiente. Nos últimos sete anos, 123 ativistas foram assassinados, e oito em cada dez casos continuam sem solução.
Projeto da discórdia
Berta Cáceres, a mãe, era a líder indígena, ambientalista e feminista mais proeminente de Honduras quando foi assassinada a tiros dentro de casa, em sua cidade natal de La Esperanza, no Oeste do país, na noite de 3 de março de 2016.
Prestes a cumprir 45 anos, recebera um ano antes o Prêmio Goldman de Meio Ambiente, conhecido como o “Nobel dos ambientalistas”, por seus esforços para impedir a construção da represa Agua Zarca no rio Gualcarque.
À frente do Copinh (Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras), a mestiça que se dizia orgulhosa de suas raízes lencas apoiou bloqueios de estradas, sabotagem de equipamentos e piquetes em frente à empresa hondurenha DESA (Desarrollos Energéticos S.A.), responsável pelo projeto.
Com sua presença, deu mais visibilidade à mobilização da comunidade Lenca de Rio Branco, afetada pelas obras. As ações, somadas à pressão direta de Berta sobre instituições de crédito dispostas a financiar Agua Zarca, levaram a empresa chinesa Sinohydro a abandoná-lo em 2013. Ao mesmo tempo, o clima de violência não cessou de piorar na região. Vários companheiros de Cáceres foram assassinados antes e depois dela.
Legado
Com a morte da ativista, Bertita, a filha, atendeu o chamado do Copinh e abandonou o mestrado em Estudos Latino-americanos que cursava no México para assumir a coordenação-geral da organização no lugar da mãe. “Sabemos do risco, mas o objetivo não é deixar que o medo vença. É o que temos que fazer”, diz, referindo-se a si mesma no plural. A firmeza com que ela fala contrasta com a aparência frágil.
“Esta é uma luta pelos direitos de um povo milenar, mas é também uma luta por justiça para minha ‘mami’ e por reparação pessoal.” Dois de seus três irmãos – Salvador, 23 anos, e Laura, 25 anos – continuam vivendo fora do país por questões de segurança. Só a irmã mais velha, Olivia, advogada de 28 anos, vive em Honduras, onde segue carreira política.
Delicada, Bertita é mais um fruto de uma família de mulheres fortes. A avó, Austra Berta Flores, de 86 anos, foi parteira e enfermeira antes de ser eleita três vezes prefeita de La Esperanza. Nos anos 1980, quando a América Central fervia entre guerrilhas, golpes de Estado e ditaduras, foi também governadora de Intibucá, região à qual pertence La Esperanza, além de deputada nacional.
A família cresceu em meio a um “profundo respeito pela terra” e com a “consciência de que é necessário lutar para protegê-la”, afirma a jovem. Ela e seus irmãos participavam de incursões por comunidades lenca, a maior etnia indígena de Honduras, com cerca de 400 mil representantes, aos quais a mãe inculcava o orgulho de suas origens e explicava seus direitos. “Mamãe queria que víssemos como eles vivem, que tivéssemos esse contato com a terra, com essa realidade.”
Nos últimos anos, o Copinh denunciou 33 ameaças de morte ao Ministério Público hondurenho, promessas de linchamento, de estupros, de sequestros e de agressões. Quando foi assassinada, Berta estava teoricamente sob proteção do governo.
Bertita afirma que ainda não foi alvo de ameaças desde que assumiu o comando do Copinh. “Ameaças diretamente contra mim não. Mas somos alvo de uma campanha de criminalização do Copinh, de descrédito pessoal”, alerta. A jovem se prepara agora para dar o maior passo em sua busca por justiça para a mãe. Neste mês, apresenta na Holanda uma denúncia contra o Banco de Desenvolvimento desse país, acusando-o de conivência no assassinato de Berta.
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