Quarta-feira, 15 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 15 de julho de 2026
A Polícia Federal (PF) entregou na terça-feira (14) ao Supremo Tribunal Federal (STF) as primeiras conclusões sobre o esquema de desvio bilionário por meio de descontos indevidos nos contracheques de aposentados. Em investigação envolvendo uma única entidade, 48 pessoas foram indiciadas pela fraude de R$ 708 milhões, com participação de servidores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O relatório foi enviado ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso no STF. Enquanto outras entidades seguem sob investigação, caberá agora ao Ministério Público decidir se apresenta denúncia contra os indiciados desta primeira fase.
A apuração concluída trata de suspeitas de irregularidades na Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer). Outras investigações, como a que envolve Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, continuam em andamento.
Servidores corrompidos
Entre os indiciados está o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, suspeito de receber propina e acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa. Durante a investigação, ele negou ter cometido crimes.
Também foram indiciados o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontados como operadores e beneficiários do esquema.
Segundo a PF, os dois corromperam, com outros envolvidos, servidores como Virgílio Antonio Ribeiro de Oliveira Filho, procurador do INSS, e José Carlos Oliveira, ex-diretor de Benefícios, ex-presidente do instituto e ex-ministro do Trabalho e Previdência. O ex-deputado Euclydes Pettersen também é acusado de receber R$ 14,7 milhões por atuar como “fiador político” do esquema.
O inquérito é derivado da Operação Sem Desconto. De acordo com a PF, entidades firmavam acordos de cooperação com o INSS para efetuar descontos mensais diretamente na folha de pagamento de aposentados, muitas vezes sem autorização.
A Conafer passou a ser investigada após indícios de crescimento expressivo na arrecadação por meio de descontos em benefícios previdenciários. Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) identificaram indícios de filiações irregulares e autorizações obtidas de forma fraudulenta ou sem consentimento.
No relatório entregue ao STF, a PF afirma que o esquema atingiu principalmente aposentados indígenas, moradores de áreas rurais e pessoas em situação de maior vulnerabilidade, além de incluir benefícios de segurados já falecidos. Segundo os investigadores, a entidade enviava ao INSS e à Dataprev listas com nomes de pessoas que jamais autorizaram a cobrança de mensalidades associativas.
Mensagens apreendidas mostram que os investigados acompanhavam a reação de parte das vítimas. Em uma conversa reproduzida no relatório, Iris Ferreira Rodrigues relata ao operador financeiro Cícero Marcelino de Souza Santos que sua mãe pretendia procurar trabalho como doméstica em Joinville (SC) para “fugir e se esconder”, porque “os indígenas” estariam atrás dela após ela “levar um monte de cadastros deles”. Nas mensagens, Cícero afirma ainda que uma liderança indígena teria ligado para ameaçá-la e diz que ela buscava deixar a região com medo da reação das vítimas.
O esquema também rendia dinheiro a servidores do INSS. Stefanutto, por exemplo, recebia propinas “recorrentes”, segundo a PF, para viabilizar as fraudes. Os pagamentos eram feitos por cheques, Pix e entregas de dinheiro em espécie. De acordo com a investigação, sua mesada aumentou para R$ 250 mil após assumir a presidência do INSS.
A PF rastreou os repasses a partir de conversas entre integrantes da Conafer. Foram identificados pagamentos a diferentes agentes públicos, chamados de “heróis”, “notáveis” e “amigos”. Stefanutto aparecia nos registros com o codinome “Italiano”.
Segundo a corporação, o ex-presidente do INSS tinha o “domínio do fato e determinava os pagamentos indevidos”. Em uma das mensagens interceptadas, um integrante da Conafer pede a um colega que faça “contato” com o ex-procurador e entregue uma “encomenda de 100”.
A PF também relata encontros entre membros da Conafer e Stefanutto em São Paulo, em 2022. Parte das reuniões contava com a presença de José Carlos Oliveira, identificado como “Abou yasser”.
Propina da madrugada
Segundo o inquérito, os encontros ocorriam fora da agenda oficial, geralmente no “finalzão da noite” ou na “madrugada”, em hotéis da capital paulista, como o Hotel Hudson, no Itaim Bibi. Para disfarçar entregas de dinheiro em espécie — pacotes de R$ 50 mil ou R$ 100 mil —, os investigados usavam códigos como “pendrive com processo para analisar” ou “encomenda”.
Já o ex-deputado Euclydes Pettersen, segundo a PF, era responsável por chancelar a indicação de procuradores e diretores corrompidos para manter as fraudes. Na relação de propinas, era identificado como “Herói E” e figurava como o agente político mais bem remunerado.
Os pagamentos, segundo a investigação, ocorreram por meio de contas de passagem de lotéricos e empresas de fachada. A PF também afirma que Pettersen ocultou e lavou os valores recebidos por meio de investimentos na pecuária, desmatamento químico de fazendas e ocultação de aeronaves. (Com informações do jornal O Globo)
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