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Apenas três em cada dez homens conseguem falar sobre sentimentos

Apenas três em cada dez homens dizem conversar frequentemente com os amigos sobre medos e anseios. (Foto: Reprodução/Pixabay)

Dizer que os homens sofrem um problema de silêncio parece um contrassenso. Afinal, eles falam tanto que existem até termos para identificar quando interrompem a fala de uma mulher ou querem explicar algo que ela já sabe: “manterrupting” e “mansplaining”. Mas, segundo uma pesquisa com quase 28 mil homens brasileiros, realizada neste ano pelo site PapodeHomem, expressar as próprias emoções é difícil para eles – e as consequências respingam em sua saúde mental e são um dos fatores relacionados à violência doméstica. As informações são do jornal O Tempo.

Apenas três em cada dez dizem conversar frequentemente com os amigos sobre medos e anseios, mesmo que seis em cada dez declarem sofrer distúrbios emocionais em algum nível (como ansiedade e depressão). E 72% dizem ter sido ensinados a não demonstrar fragilidade.

O cenário de repressão emocional é antigo, mas a popularização do feminismo, das discussões sobre gênero e as crises econômicas têm virado a situação. “Mudanças no próprio capitalismo fazem com que eles não possam mais ser o homem ideal, provedor”, diz Cristiano Rodrigues, coordenador de um grupo de estudos sobre o tema na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Foi justamente uma crise econômica que chacoalhou a perspectiva do projetista mecânico Paulo Miranda, 37. “Em 2014, minha empresa faliu, me divorciei, perdi casa, carro e voltei a morar com a mãe. Pensei ‘Poxa, fiz tudo certinho e, ainda assim, deu errado’, alguma coisa não está certa comigo”, conta.

Os grupos de conversa com homens ajudaram a amenizar a angústia. São reuniões em que eles falam sobre as próprias emoções e discutem sobre como lidar com elas no mundo em transformação. Em Belo Horizonte, já existem pelo menos quatro que se encontram regularmente – três deles criados em 2019.

Homens possíveis

Em fevereiro deste ano, Miranda fundou seu próprio grupo, o Masculinidades Negras, em que homens negros discutem suas questões. Um dos integrantes é o empreendedor André Gomes, 34. “Da adolescência para a idade adulta, entra a história de ser ‘negão’, ‘o forte’, e nunca me encaixei nisso”, diz. “O grupo me ajudou a externar meus sentimentos. Posso ter um diálogo sem violência”. diz ele.

Ele é a cara do pai

A paternidade é vista ao mesmo tempo como problema e possível solução. Problema porque, se é nos pais que os meninos se espelham, uma criação à base de estereótipos leva a homens retraídos. Solução porque é uma chance de mudança.

Quando a gente vai dar uma bronca no filho, pensa: eu odiava quando meu pai fazia assim e não quero repetir. A paternidade oferece várias chances de você pensar o que quer fazer igual e o que quer fazer diferente do seu pai”, diz Ismael dos Anjos, um dos idealizadores da pesquisa “O Silêncio dos Homens”, que dá nome a um documentário sobre o tema, lançado no final de agosto.

Ele mesmo demorou a perdoar o aparente distanciamento emocional do pai. “A gente tem que olhá-los com compaixão, ver o que eles têm, e não o que falta. Não pode nem criar uma estátua do pai como super-herói, nem a de um vilão. É importante tratá-lo como um homem possível, que fez o que pôde e como pôde. Hoje tenho alegria e muito orgulho do meu”, diz.

Relação direta com violência doméstica

Para o psicólogo Felippe Lattanzio, a violência doméstica tem relação direta com noções de masculinidade, como não falar sobre as próprias emoções.

Todos os casos de violência masculina, nem só contra a mulher, têm a ver com a maneira como homens são criados e com os avatares do machismo, como a ideia de não poder levar desaforo para casa”, diz. Ele coordena o Instituto Albam, que, desde 2005, promove grupos de conversa obrigatórios com homens agressores, em parceria com o Poder Judiciário. Mais de 4.000 homens passaram pelo processo.

O pesquisador Cristiano Rodrigues lembra, porém, que a chamada “masculinidade tóxica” (aspectos nocivos da noção tradicional de homem) não é o único ingrediente da violência: “Isso retira a responsabilidade do homem em relação ao seu comportamento, como se a cultura o condenasse a fazer algo. Ele poderia não sucumbir a comportamentos tóxicos”.

Acho ‘masculinidade tóxica’ o melhor termo para descrever esses comportamentos da heterossexualidade compulsória, da restrição emocional e da ideia de ser dominante, porque as coisas tóxicas não danificam só o lugar onde estão, mas se espalham para o ambiente ao redor”, reforça o jornalista Ismael dos Anjos.

A mentora de autoconhecimento Kika Moreira, 40, é uma das criadoras do grupo belo-horizontino Homens com H, iniciado neste ano. Ele reúne homens para trocar experiências pessoais a partir de temas como saúde e carreira.

Uma das formas em que a masculinidade tóxica afeta a mim mesma é a ausência do pai da minha filha na vida dela. Eu sou filha de pai ausente e, agora, mãe de filha com pai ausente. O pai dele também é. Veja o monte de vezes que a gente repete as coisas sem perceber”, compara.

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