Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

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Brasil Bolsonaro compartilhou vídeo de aluna que filmou professora em aula

A educação e a saúde foram os dois setores que tiveram percentuais positivos. (Foto: Freepik)

O presidente Jair Bolsonaro publicou neste domingo (28), em suas redes sociais, um vídeo de uma aluna que confronta uma professora de gramática, alegando que a educadora gastou 25 minutos da aula para falar sobre política, com críticas ao governo e ao ideólogo de direita Olavo de Carvalho.

“Professor tem que ensinar e não doutrinar”, escreveu o presidente ao compartilhar o vídeo de um minuto e 54 segundos.

No vídeo, a aluna questiona a professora, que afirma que Olavo de Carvalho é uma anta porque “mete o pau em tudo”. Carvalho tem sido uma figura influente no governo, sendo ouvido em decisões da atual gestão.

A estudante, então, começa a questionar o tempo que a professora teria gasto para falar de política.

“Você não percebeu que pegou 25 minutos da aula para expor sua opinião político-partidária?”, diz a estudante.

“Não foi político-partidária”, contesta a educadora.

“Foi sim, a senhora criticou o Escola sem Partido, o governo, e não estou pagando cursinho para ouvir sua opinião político-partidária. Estou pagando cursinho para assistir à aula de gramática”, retruca a autora do vídeo.

Depois, a professora pede que a estudante fale com o coordenador. A aluna, por sua vez, diz que também filmou a aula e que vai repetir a atitude futuramente.

“Todas as suas aulas eu vou gravar e expor na internet, tá bom?”, diz a estudante. “A senhora não pode entrar aqui e falar o que a senhora quiser. Estou pagando pela aula de gramática.”

Bolsonaro comentou o vídeo neste domingo, ao chegar ao prédio em que mora um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). O presidente não explicou como o vídeo chegou até ele, nem se houve uma apuração da reclamação da aluna antes que as imagens fossem divulgadas em sua rede oficial. Ele se limitou a defender que os professores não podem mostrar “um lado só” em suas aulas.

“Nós queremos a escola sem partido, ou, se tiver partido, que tenha os dois lados. Não pode é ter um lado só na sala de aula”, afirmou o presidente.

Nas redes sociais da estudante que gravou o vídeo, ela se diz filiada ao PSL, partido de Bolsonaro. Quando questionado, o presidente negou ter conhecimento disso.

“Não sei”, disse ele.

Escola sem partido

A vigilância de alunos sobre professores é uma das principais bandeiras do projeto Escola Sem Partido — apoiado por Bolsonaro —, que propõe acabar com uma suposta “doutrinação” por parte de docentes. Embora o projeto já seja motivo de debate há alguns anos, somente a nova versão dele — apresentada em fevereiro pela deputada Bia Kicis (PSL-DF) — prevê, expressamente, que os alunos podem gravar as aulas.

“É assegurado aos estudantes o direito de gravar as aulas, a fim de permitir a melhor absorção do conteúdo ministrado e de viabilizar o pleno exercício do direito dos pais ou responsáveis de ter ciência do processo pedagógico e avaliar a qualidade dos serviços prestados pela escola.”

O projeto está em debate no Congresso, e sua aprovação é vista por Bolsonaro e por muitos deputados do PSL como prioridade do governo.

O novo texto tem, em geral, medidas mais rigorosas para fiscalizar os professores do que as versões anteriores. Ele proíbe, por exemplo, que os grêmios estudantis promovam atividades político-partidárias e considera “ato de improbidade administrativa” o descumprimento de quaisquer dos pontos previstos pelo projeto. Também prevê a criação pelo Poder Público de um “canal de denúncias” destinado a reclamações de estudantes em relação a professores.

No entanto, o movimento Escola Sem Partido já foi contestado pela Advocacia-Geral da União, pelo Ministério Público Federal e por associações de professores.

“A insistência nessa pauta é um desrespeito com o mundo educacional. É uma proposta que fere princípios constitucionais de liberdade de cátedra e de pluralidade pedagógica”, criticou a doutora em Educação pela USP Denise Carreira, coordenadora da Ação Educativa, em entrevista ao jornal O Globo em fevereiro deste ano.

Questionada sobre dispositivos que protejam os professores de perseguições, a deputada Bia Kicis, autora da nova versão do projeto, afirmou ao Globo, também em fevereiro, que a intenção é apenas garantir o “direito das crianças”.

Na mesma noite em que Jair Bolsonaro foi eleito, em 28 de outubro, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC) gerou repúdio de entidades de educação ao pedir na internet que estudantes vigiassem seus professores e denunciassem “manifestações político-partidárias ou ideológicas”. A deputada disponibilizou, na ocasião, um número de WhatsApp para que os alunos enviassem vídeos das aulas de professores.

Um dia depois, o Ministério Público de Santa Catarina informou que foi aberto um procedimento para apurar possível violação ao direito à educação dos estudantes.

 

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