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Guerra comercial com a China já afeta a economia dos Estados Unidos

Donald Trump e Xi Jinping se encontraram em Osaka, no Japão. (Foto: Reprodução)

É tempo de colher amêndoas na Califórnia, epicentro da produção mundial da semente, e pilhas com mais de três metros de altura vão se acumulando à espera de processamento na fábrica da Vann Family Orchards. O telefone celular de Bob Silveira, diretor de vendas e marketing da empresa, quase não para de tocar com pedidos de clientes e negociações com fornecedores. Neste ano, as chuvas um pouco acima do normal prejudicaram a safra, mas os preços estão bons e ele respira aliviado: conseguiu driblar as consequências da guerra comercial entre Estados Unidos e China para as suas exportações.

Os chineses, um de seus principais mercados, passaram a cobrar tarifa de 50% sobre a importação de amêndoas americanas. Era uma péssima notícia para a Vann Family, que todos os anos processa 20 mil toneladas e tem faturamento de US$ 150 milhões. Foi quando a companhia fez um acordo de cavalheiros antes impensável com seus concorrentes australianos. “Eles sempre disputaram o mercado conosco, mas a Austrália tem livre comércio com a China. Então fizemos uma proposta: atendam os chineses, já que vocês não pagam tarifas, e nós atendemos os europeus. Pela primeira vez atuamos em parceria”, conta Silveira, orgulhoso da estratégia comercial.

Nem todo mundo expressa a mesma satisfação. Na linha de montagem da Never Summer, uma fabricante de snowboards (pranchas de esqui) que emprega 75 pessoas em Denver, lamenta-se as sobretaxas aplicadas pela Casa Branca em insumos siderúrgicos. Os laminados planos de aço que vêm da China têm encarecido os equipamentos finais em US$ 4 e inviabilizado a meta traçada pela empresa de evitar aumentos de preço no varejo, segundo seu executivo Harry De Boer.

“Tentamos uma substituição, mas sempre acabamos caindo em fornecedores chineses. Para o tipo de produto que precisamos, não existem outros”, afirma De Boer, já conformado com a alta de custos. Mesmo assim, ele explica que nem cogita entrar com um pedido de isenção das sobretaxas no governo americano. “São procedimentos caros e complicados.”

Preços maiores no varejo são a maior consequência no dia a dia dos consumidores americanos com a última rodada de tarifas adicionais anunciadas pelo presidente Donald Trump no âmbito da guerra comercial. Diferentemente das anteriores, essa nova espiral protecionista afeta principalmente bens de consumo finais. Associações privadas calcularam acréscimos de US$ 50 a US$ 120 para smartphones, tablets e laptops.

A distribuidora da L.O.L. Surprise House! – uma casinha de boneca de três andares fabricada na China e que foi o item mais vendido nas lojas de brinquedos no ano passado – anunciou aumento no preço de US$ 199 para US$ 250. A Trade Partnership, uma consultoria de comércio exterior, estimou gasto adicional pelos consumidores de US$ 2,5 bilhões por ano para calçados e de US$ 4,4 bilhão para produtos têxteis com as sobretaxas.

Em agosto, Trump prometeu aplicar uma tarifa adicional de 10% sobre US$ 300 bilhões em compras do gigante asiático. Diante das cifras, adiou de 1º de setembro para 15 de dezembro o início da cobrança para a maior parte dos produtos afetados. Ele alegou que era uma forma de não atrapalhar as compras de Natal. Mesmo assim, uma parcela das importações americanas de bens “made in China” começou a pagar taxa mais alta ontem – caso de lácteos, bolas de golfe, lentes de contato, motores para motocicletas e baterias de lítio.

É a sexta rodada de aumentos tarifários, e o setor privado dá sinais de cansaço com a postura de Trump. “A comunidade empresarial americana exorta o governo dos Estados Unidos e a China a voltar à mesa de negociações e alcançar um acordo que endereça preocupações sobre transferência de tecnologia, propriedade intelectual, acesso a mercados e os impactos negativos globais de subsídios chineses”, afirmou o diretor de assuntos internacionais da US Chamber (Câmara Americana de Comércio), Myron Brilliant. “Prolongar as tensões comerciais e a escalada de tarifas não é de interesse de ninguém.”

A economista-chefe de um grande banco em Wall Street afirmou ao Valor, pedindo para não ser citada, que o agravamento do conflito EUA-China já tem afetado negativamente a economia americana por vários motivos: gera dúvidas sobre a cadeia de produção, freia novos investimentos voltados ao atendimento do mercado externo, aumenta custos com insumos importados.

Ela nota que, mesmo com a redução de impostos para as empresas promovida por Trump, o ritmo de expansão do investimento privado passou de 6,9% no ano passado para 3,6% em 2019, conforme as projeções do banco.

Um relatório do Citi descreve algumas demandas da Casa Branca – a maioria não divulgada publicamente – que estariam sendo feitas para um acordo com a China. Estariam entre essas exigências: redução do déficit bilateral em US$ 200 bilhões até o fim de 2020 (sobre os números de 2018), a retirada da reclamação de Pequim na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre o não reconhecimento do status de economia de mercado pelos Estados Unidos e um aval para que o governo americano possa adotar restrições a qualquer momento em setores contemplados no Plano Made in China 2025 (de fomento à inovação e à indústria de alta tecnologia).

Para a consultoria de risco político Eurasia, os chineses adotaram uma tática de ganhar tempo na guerra comercial com Trump e torna-se “crescentemente improvável” um acordo antes das eleições presidenciais de 2020, segundo o analista David Gordon.

Na avaliação dele, Pequim não quer ser vista como responsável pelo fracasso das conversas, mas também não tem interesse em entregar um entendimento que possa ser positivo para as ambições eleitorais de Trump. Enquanto isso, diz Gordon, há “forte sentimento na comunidade empresarial e nos mercados financeiros” de que o maior risco de recessão provém da falta de acordo entre Estados Unidos e China. “Existe uma crescente frustração em relação à aparente ausência de estratégia da parte do governo americano, bem como às idas e vindas do presidente [Trump], guiadas pela emoção”, acrescenta.