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Trudeau vence eleições no Canadá, mas não consegue obter maioria

O líder liberal e primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e a esposa, Sophie Gregoire Trudeau. (Foto: Reprodução)

Desafiado pela direita e pela esquerda, o primeiro-ministro Justin Trudeau sobreviveu a uma das eleições mais disputadas na história do Canadá. Segundo as projeções, os liberais perderão sua maioria, mas conseguirão formar um governo minoritário, mantendo-se no poder.

O Partido Liberal, do primeiro-ministro, deverá sair vitorioso em 155 dos 338 distritos eleitorais do país, 15 assentos a menos do que os 170 necessários para formar uma maioria na Câmara dos Comuns. Liderados por Andrew Scheer, os conservadores elegeram 122 deputados – resultado superior ao obtido nas eleições de 2015, mas também insuficiente.

Os números do Partido Conservador, no entanto, são ligeiramente inferiores aos levantados por pequisas na véspera das eleições, que chegaram a indicar que Scheer poderia liderar um governo minoritário. Ainda assim, o bloco liderou a votação popular, conquistando 34,5% dos votos contra 32,9% dos liberais.

Após o resultado ser divulgado, Scheer telefonou para Trudeau reconhecendo a derrota. Em discurso a seus apoiadores, o premier agradeceu pelo resultado:

“Nesta noite, de costa a costa, os canadenses rejeitaram a divisão e a negatividade. Eles rejeitaram cortes e austeridade e votaram em favor de uma agenda progressista e duras ações contra a crise climática”, disse o premier.  “Tem sido a maior honra da minha vida servir a vocês nesses últimos quatro anos e, nesta noite, vocês estão nos enviando novamente para representá-los. Nós levamos esta responsabilidade a sério e trabalharemos duro para você, para suas famílias e para seu futuro.”

Havia uma grande incerteza na véspera da eleição que as polêmicas ao redor de Trudeau pudessem dividir o voto progressista, abrindo caminho para um triunfo dos conservadores. Isto, no entanto, não se concretizou. À esquerda dos liberais, o Novo Partido Democrático (NDP), conseguiu apenas 25 assentos, 14 a menos que em 2015. O resultado contrariou as especulações de que a popularidade de seu líder, Jagmeet Singh, pudesse ser suficiente para impulsionar seus votos. O partido verde, por sua vez, adicionou apenas mais um deputado aos dois que já tinha, chegando a três.

Das siglas minoritários, quem saiu na frente foi o Bloc Québécois, sigla que defende a separação do Quebec e que havia perdido seu status de partido em 2015. O grupo tornou-se o terceiro maior partido na Câmara, com 32 assentos. Yves-Fraçois Blanchet, tornou-se o primeiro líder do partido a conseguir se eleger desde 2008.

Liderando um governo minoritário, Trudeau precisará ter a confiança da Casa para se manter-se no poder. Caso ele venha a perder uma moção de desconfiança, seja em seu primeiro discurso ou na aprovação do orçamento, seu governo poderá não sobreviver. Isto, no entanto, parece improvável, visto que tem uma margem considerável de 33 assentos para os conservadores.

É esperado que as discussões para um novo governo comecem já nesta terça-feira, com Trudeau provavelmente buscando o apoio do NDP ou do Bloc Québécois. Um aliança com a sigla de Singh, em particular, poderá forçar o governo canadense a realizar uma guinada para a esquerda, levando mais em conta questões sociais e ambientais.

Cenário diferente

Um governo minoritário é algo novo para Trudeau que, em 2014, partiu de um terceiro lugar nas intenções de voto para conquistar a ampla maoria maioria, com 184 assentos. Na ocasião, sua plataforma progressista, pró-imigração e preocupada com questões ambientais e sociais o tornou amplamente popular, em especial entre a juventude.

Mesmo com um governo minoritário, a vitória de Trudeau nas eleições de segunda-feira evitou um fracasso histórico para os liberais, que chegaram ao poder há quatro anos movidos por uma onda de otimismo e mudança. Em apenas quatro ocasiões na História canadense um premier não conseguiu se reeleger.

Ao logo dos anos, no entanto, o premier se envolveu em uma série de escândalos que colocaram a autenticidade de sua postura progressista em xeque. O primeiro veio já em 2016, quando Trudeau e sua família passaram as festas de final de ano nas Bahamas, na ilha privada de Aga Khan, líder dos muçulmanos ismaelitas.

O bilionário é presidente do Centro Global para o Pluralismo, organização que faz lobby na Casa dos Comuns e que, segundo registros públicos, recebeu mais de 47 milhões de dólares canadenses do governo federal em 2016. Na ocasião, a comissária de ética do Canadá, Mary Dawson, constatou que Trudeau teria violado a lei de conflito de interesse .

Além disso, em 2018, Trudeau se vestiu com elaboradas roupas típicas durante uma visita à Índia — algo entendido por muitos como apropriação cultural. Outra polêmica diz respeito à compra de um oleoduto que levaria petróleo de Alberta para a Columbia Britânica para permitir que sua capacidade de funcionamento triplicasse.

Em agosto deste ano, a Comissão de Ética parlamentar concluiu que houve novamente conflito de interesse quando o premier pressionou a então procuradora-geral , Jody Wilson-Raybould, para aprovar um acordo que evitasse que a empresa de engenharia SNC-Lavalin fosse processada por corrupção.

A pá de cal na imagem de Trudeau, no entanto, veio há cerca de um mês, na segunda semana de campanha eleitoral. Na ocasião, vieram à tona três fotos de Trudeau tiradas nos anos 1990 e no início dos anos 2000 com o rosto pintado de preto e marrom. Essas práticas, conhecidas como blackface e brownface, são hoje consideradas profundamente racistas.