Segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 10 de setembro de 2021
Se em boa parte dos últimos 20 anos o foco da segurança nacional dos Estados Unidos foi a “guerra ao terror”, iniciada após os atentados terroristas da al-Qaeda em 11 de setembro de 2001, hoje os olhos de Washington estão virados para o seu próprio território: a ameaça interna, principalmente de grupos de extrema direita, é considerada a principal pelas agências americanas de Inteligência.
Isso não significa que as ameaças que vêm de fora tenham deixado de representar um perigo, ou que não possam crescer, dizem analistas.
A reação de Washington aos atentados que deixaram quase 3 mil mortos não apenas deu início à mais longa guerra da história do país, no Afeganistão — onde o então governo do Talibã era acusado de dar abrigo a Osama bin Laden, chefe da al-Qaeda.
Os temores também abasteceram o preconceito contra muçulmanos, que, ao lado do crescimento da imigração e do sentimento de que o país estava ficando “menos branco”, impulsionaram grupos de extrema direita que já existiam. A eleição de Donald Trump em 2016, com um discurso racista, xenófobo e anti-imigração, fechou o ciclo.
“O terrorismo da supremacia branca está profundamente enraizado aqui, e a ‘guerra ao terror’ o ignorou. As elites americanas optaram por desviar o foco”, analisa o jornalista Spencer Ackerman, autor do recém-lançado livro “Reign of Terror: How the 9/11 Era Destabilized America and Produced Trump” (“Reinado do terror: como a era do 11 de Setembro desestabilizou a América e produziu Trump”).
De fato, o extremismo interno nunca esteve ausente. Pelo menos desde 1994, os EUA sempre tiveram mais ataques ou tentativas de atentados que falharam vindos de grupos de extrema direita, uma disparidade que cresceu ainda mais a partir de 2013, segundo um relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
Parte dos analistas concorda com a decisão de Washington de se empenhar para enfrentar o terrorismo islâmico após o 11 de Setembro, mas critica a forma como isso foi feito. Ackerman relembra que práticas como detenções por tempo indeterminado e tortura foram intensificadas, e que o FBI colocou agentes em mesquitas e espionou lideranças religiosas que não enfrentavam nenhuma acusação concreta.
Subestimação
Em meio à guerra em várias frentes no exterior contra os jihadistas, os Estados Unidos passaram a deixar para escanteio os investimentos e esforços investigativos contra a ameaça que já estava ao seu lado. Uma série de outros fatores em conjunto potencializaram o crescimento e o recrutamento de novos integrantes por grupos da extrema direita.
Paralelamente à queda da confiança na imprensa, o uso da desinformação e o avanço das redes sociais permitiram que os extremistas se conectassem e espalhassem teorias conspiratórias de maneira mais rápida e eficiente.
A própria eleição de Barack Obama para a Presidência (2009-2017), um negro filho de um queniano com nome muçulmano, “assustou a extrema-direita, observam analistas.
Agora, uma das justificativas do governo de Joe Biden para a retirada do Afeganistão é justamente que a maior ameaça aos Estados Unidos vem de dentro. A nova prioridade tem respaldo popular.
Atualmente, 65% dos americanos estão extremamente preocupados com grupos terroristas internos, enquanto 50% têm o mesmo sentimento em relação a grupos de fora do país, segundo uma pesquisa feita pela agência de notícias AP com a Universidade de Chicago.
No entanto, mesmo com os Estados Unidos tendo adotado mais medidas de segurança e prevenção ao longo das últimas duas décadas para evitar a ação de jihadistas dentro do país, o terrorismo islâmico ainda pode representar um perigo, advertem analistas.
Jason Blazakis, diretor do Centro de Terrorismo, Extremismo e Contraterrorismo do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, teme que, em longo prazo, o risco do terror jihadista volte a ser maior para os Estados Unidos.
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