Segunda-feira, 03 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 3 de agosto de 2026
A maioria ou 88,9% das empresas não têm políticas formais que proíbam os funcionários de responder mensagens de WhatsApp ou e-mails após o expediente. Para quase metade (48,9%) atender chamadas do tipo depois do trabalho “é rotina” entre as equipes e 42,2% relatam que a prática acontece com frequência. Além disso, entre as organizações sem diretrizes de “desconexão”, 55,6% relatam que não há estudos para implantá-las.
É o que mostra uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), que ouviu 45 companhias que reúnem mais de 300 mil empregados. Do total, a maior parte atua no setor de saúde (34,1%), antes da indústria (20,5%) e educação (9,1%).
“O objetivo foi compreender como as empresas brasileiras estão tratando do tema da desconexão após o expediente”, explica Ana Carolina Peuker, diretora da ABQV e uma das coordenadoras do estudo. “Trata-se de um assunto emergente em outros países, mas no Brasil ainda é pouco falado ou colocado em prática.”
Peuker, que também é psicóloga, afirma que o distanciamento das tarefas quando o horário de trabalho termina deixou de ser apenas uma discussão sobre qualidade de vida e passou a fazer parte da gestão de fatores de risco psicossociais.
Segundo especialistas, os riscos psicossociais no trabalho têm o potencial de afetar a saúde mental, física e o bem-estar dos funcionários. Decorrem de fatores como sobrecarga, falta de autonomia, assédio e má gestão, podendo desencadear quadros de estresse, ansiedade e burnout.
“Em ambientes de trabalho cada vez mais conectados, é fundamental que as chefias estabeleçam limites para preservar a recuperação física e emocional dos trabalhadores”, aponta. “A tecnologia deve apoiar a produtividade e não ampliar continuamente a jornada de trabalho.”
A estudiosa destaca ainda que há um descompasso entre a digitalização de rotinas e a governança nos negócios. “As empresas aceleraram a adoção da tecnologia, mas 88,9% ainda não têm uma política formal de desconexão e 77,8% sequer têm práticas estruturadas sobre a questão”, compara. “O que se percebe é que a infraestrutura tecnológica ‘correu’ na frente da infraestrutura de gestão.”
Ligação do chefe
O levantamento indica que a “cultura da disponibilidade permanente” se mostra concentrada principalmente nos cargos de liderança; gerentes, coordenadores, diretores e integrantes do C-level, nessa ordem, aparecem entre os cargos que mais permanecem conectados depois que o expediente regulamentar termina.
“É um cenário que pode ter duas consequências”, explica Peuker. “A primeira é o efeito cascata, pois os funcionários podem pensar que ‘se meu líder está conectado, também devo me mostrar disponível”.
O segundo impasse, continua a executiva, é a dificuldade que as lideranças têm de aceitar a necessidade de desconexão. “Se o alto escalão não reconhece que isso é um problema, como a companhia poderá construir políticas que promovam o bem-estar e a qualidade de vida?”, questiona.
Mundo consciente
De acordo com Peuker, vários países já tratam o “direito ao desligamento” como uma regra de negócio – e o Brasil precisa fazer o mesmo.
“A França regula o assunto desde 2017, assim como Portugal (2021) e a Austrália (2024)”, enumera. “Cada um tem um modelo, mas todos agem com o mesmo princípio: o trabalho no ambiente digital precisa de regras.”
No Brasil, a diretora da ABQV lembra que a NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1, que estabelece as diretrizes gerais de segurança e saúde no trabalho) determina que as empresas mapeiem e façam a gestão dos riscos psicossociais, enquanto a norma internacional ISO 45003, oferece métodos para realizar esse gerenciamento.
“A desconexão entra nesses dois marcos como um risco a ser monitorado, com indicadores e metas, igual a qualquer outro risco de negócio”, argumenta. O ativo mais valioso da corporação não é somente o capital ou a tecnologia, acrescenta. “É a capacidade cognitiva das equipes. E o objetivo de debater essa questão não é proibir contatos, mas definir prioridades, grau de urgência e prazo de resposta.” As informações são do jornal Valor Econômico.
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