Segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 31 de agosto de 2020
A participação de eleitores com 16 e 17 anos de idade no pleito municipal de novembro será a menor em uma eleição brasileira desde 1990, após o voto facultativo ser instituído na Constituição de 1988. Os dados foram levantados pelo jornal O Globo a partir de estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e só não consideram a disputa para presidente de 1989 porque não há informações públicas sobre a distribuição do eleitorado por idade naquele ano.
Estão aptos a votar este ano pouco mais de 1 milhão de eleitores desse grupo etário, número 55% menor que o contabilizado em 2016. Esses jovens representam 0,7% do eleitorado contra 1,6% na última eleição municipal. Há 30 anos, eram 3,5% dos votantes. A redução foi a maior da série histórica e ocorreu em ritmo maior que a variação dessa população no mesmo período. De acordo com dados do IBGE, o total de jovens de 16 e 17 anos encolheu 9,5% no País em quatro anos.
A baixa adesão já era observada nos últimos anos, mas se intensificou em 2020 devido à pandemia de covid-19, na avaliação da Justiça Eleitoral e de pesquisadores. Isso porque o prazo para emissão de títulos de eleitor acabou em maio, quando diversos estados já adotavam medidas de isolamento social, reduzindo o atendimento em parte dos cartórios eleitorais.
Cientista político e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, Julio Aurelio defende que a Justiça Eleitoral deveria ter ampliado o prazo para o alistamento, após adiar a data das eleições. Para o estudioso das manifestações de junho de 2013, no entanto, para além do impacto da pandemia, o dado reforça uma tendência dos últimos pleitos: a desmobilização juvenil tem relação direta com a falta de respostas da classe política à agenda dos protestos nas ruas do País ocorridos há sete anos.
“Há um erro nas análises de junho de 2013 que creditam ao movimento a eleição do presidente Jair Bolsonaro. É o contrário. Foi a falta de resposta a junho de 2013 que trouxe Bolsonaro. A corrupção é um problema fundamental, denunciado por junho de 2013. Mas aqueles jovens não estavam contra a democracia”, enfatiza o cientista político.
Julio Aurelio avalia que a juventude não se encantou com o “republicanismo conservador” de Bolsonaro, mas também não encontra lideranças democráticas nas quais enxergue a ética pública, tema presente segundo ele em diversas mobilizações no País e no mundo, como o antirracismo.
“O bolsonarismo se apropriou do discurso anticorrupção, mas aponta para menos transparência e está se esgotando. O que os jovens estavam dizendo em 2013 é que a democracia precisa se tornar republicana. Enquanto não se tornar, vai ser suscetível a movimentos autoritários. Hoje a sociedade ficou sem referência política. Isso devia ser considerado por atores políticos preocupados com a democracia. Precisamos de formação de lideranças políticas democráticas através da ética pública, de uma campanha civilista como a de Rui Barbosa há 100 anos.
Pesquisadora do Centro de Estudos do Comportamento Político da UFMG, Myla Freire destaca que é preciso considerar o envelhecimento da população brasileira, mas também explica que uma parcela significativa dos jovens não se identifica com a forma tradicional de fazer política, por meio da vida partidária, e costuma se mobilizar a partir de causas, como o direito à cidade e à igualdade de gênero e raça.
“Essa juventude nasceu em uma democracia, mas, na maioria dos casos, em momento algum foi educada sobre os mecanismos de participação desse regime político, sobre como o Estado brasileiro se organiza ou sobre a importância do exercício da cidadania. Os jovens precisam ser vistos como atores políticos que são e certamente também devem ser educados para isso.”
A pesquisadora concorda que a Justiça Eleitoral deveria ter ampliado prazos e atuado para garantir uma participação maior de jovens.
“Pesquisas já têm evidenciado os resultados da atual pandemia sobre o aprofundamento de determinadas desigualdades, como a educacional. E aí também se revela a desigualdade política, sobretudo porque as desigualdades socioeconômicas repercutem na esfera política. É muito difícil imaginar que uma pessoa que esteja desesperada para pagar as contas no fim do mês ou que tenha perdido um emprego se preocupe na mesma proporção com a vida política do que outra sem essas mesmas preocupações”, diz Myla Freire.
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