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Mundo A classe média alta argentina busca emigrar para escapar da crise

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Num ranking de 150 países, vizinho sul-americano é o que tem a maior parcela de empregados pagos com moeda digital. (Foto: Reprodução)

A professora de espanhol argentina Inés Barcia, de 41 anos, está na contagem regressiva. Mais quatro semanas, e ela, seu marido e três filhos embarcarão rumo à pequena cidade espanhola de La Cala de Mijas, em Málaga, na Espanha, em busca de uma vida melhor.

Não existem estatísticas oficiais, mas pesquisas mostram uma forte tendência a um novo êxodo de argentinos para o exterior. Êxodos são cíclicos na História do país, mas, no embalo da volta do kirchnerismo ao poder, em dezembro de 2019, e dos estragos causados pela pandemia, os que já estão indo ou se preparando para partir transmitem uma sensação de desengano definitivo. O país vive, em palavras de especialistas em tendências sociais, uma epidemia de desilusão.

O fenômeno se concentra nas classes média e média alta, e os destinos preferidos são Espanha, Estados Unidos, Itália e, em alguns casos, países limítrofes de vida política e econômica menos conturbada, entre eles Uruguai (o preferido dos mais ricos) e Chile. Segundo opiniões recolhidas pela empresa de consultoria Inovação, Política e Desenvolvimento (IPD) em outubro de 2020, 51% dos entrevistados afirmaram que abandonariam o país se tivessem uma oportunidade. Entre os jovens de 16 a 25 anos, o percentual alcançou 71%. Entre 27 e 35 anos, caiu para 66% e entre 36 e 45 anos ficou em 57,8%.

Dupla cidadania

Esse é o segmento no qual se encaixa Inés, representante de uma classe média absolutamente esgotada. Como se não bastassem as crises econômicas crônicas e o drama sanitário — a Argentina já superou as 50 mil mortes pela covid-19 apesar de uma das quarentenas mais longas do mundo —, o fracasso do governo de Mauricio Macri (2015-2019) foi, para muitos que viram no ex-presidente a esperança de uma mudança, o basta final.

“Sempre tive vontade de morar fora, e o que vivemos nos últimos anos me expulsou de vez. Minha mãe diz que tenho de ficar, lutar. Mas não quero atravessar mais nenhuma crise na Argentina, pra mim chega”, conta Inés.

Ela está nas tratativas finais para alugar um apartamento e, com um endereço formal, poder inscrever seus filhos em escolas públicas. Todos têm cidadania espanhola pela família materna. Seu marido, Federico, terá residência legal. Inés sabe que os primeiros tempos serão difíceis, já que ela e o marido, que é contador, continuarão trabalhando on-line e recebendo a maior parte dos pagamentos em pesos argentinos (no mercado paralelo, a cotação do euro está em 180 pesos). Mas tem confiança em conseguir um emprego com carteira assinada.

“Nunca vi tanta gente ao meu redor querendo ir embora. A pandemia foi fatal, a quarentena, horrorosa, nos trancaram em casa durante meses. Pessoalmente, fiquei muito mal”, desabafa a professora.

O destino escolhido por ela está se transformando num gueto de argentinos na Espanha. Nos últimos tempos, a Costa do Sol recebeu dezenas de famílias argentinas atraídas pelo clima e a qualidade de vida. Para lá, rumou em novembro do ano passado Juan Portesan, gerente de uma multinacional, de 64 anos. Levado pela frustração deixada pelo governo Macri, o engenheiro decidiu antecipar um projeto que já tinha com sua mulher, Romina, de 48, e as duas filhas do casal, de 15 e 9 anos. Toda a família tem cidadania italiana.

Ciclos de emigração

Em 1914, 30% da população argentina eram de imigrantes. Em Buenos Aires, o percentual era de 60%. Vinte anos depois, chegou ao país o sociólogo italiano Gino Germani, autor do famoso livro “Estrutura social da Argentina”, no qual, comparando indicadores de 1869 e 1914, encontrou uma mobilidade social superior à de qualquer outro país latino-americano. Nascia a invejada classe média argentina, a mesma que, décadas depois, emigrou e continua emigrando no sentido inverso, em muitos casos, ao de seus pais e avós.

Nas últimas décadas do século XX, houve momentos de forte emigração, com destaque para o período da ditadura (1976-1983) e, 20 anos depois, na crise que começou em dezembro de 2001, com a renúncia do presidente Fernando de la Rúa (1999-2001). Na visão da historiadora Silvina Jensen, do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), a emigração é estrutural na Argentina desde meados do século passado.

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