Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 28 de fevereiro de 2021
Com a emergência de mais variantes do novo coronavírus, cientistas estão preocupados em saber o quanto elas serão capazes de escapar da proteção gerada pelas vacinas de Covid-19. Para entender como pesquisadores e indústria estão se preparando para o caso disso acontecer, a reportagem conversou com dois imunologistas, o brasileiro Ricardo Gazinelli, da Universidade Federal de Minas Gerais, e a americana Laura Walker, da empresa de biotecnologia Adimab, para elucidar questões cruciais do problema.
1) Por que novas variantes podem se esquivar da imunidade criada pelas vacinas?
Vacinas são como partículas “fantasiadas” de vírus que ensinam o sistema imune a reconhecer o patógeno e o estimula a atacá-lo. Quando surge uma nova variante do vírus, pode ser que suas diferenças comprometam esse reconhecimento.
A principal característica do Sars-CoV-2, vírus da Covid-19, imitada pelas vacinas é a proteína spike (espícula), na superfície do vírus. Ela é o antígeno, molécula que estimula o sistema imune a reagir, enviando anticorpos para atacá-la.
2) Como está sendo monitorada a resposta das vacinas a essas variantes?
Pesquisas in vitro estão simulando a imunogenicidade (capacidade que uma vacina tem de gerar uma resposta imune) a diferentes cepas do vírus em laboratório. Além disso, são monitoradas pessoas que receberam diferentes imunizantes.
Walker, da Adimab, estudou como a imunidade gerada pela versão original do Sars-CoV-2 se saiu contra as novas cepas.
3) Se a vacina não responder ao vírus novo, o que pode ser feito?
Seria necessário mudar o antígeno da vacina. Para isso, uma mesma “plataforma” (a estrutura básica de produção da vacina) pode ser mantida, e são trocadas as amostras de vírus nas quais ela se baseia.
“A tecnologia da plataforma pode ser adaptada conforme necessário”, informou em comunicado a AstraZeneca, cuja vacina se mostrou menos eficaz contra a variante sul-africana. “Isso seria testado em estudos pré-clínicos e, em seguida, em pequenos ensaios de imunogenicidade antes de ser submetido à revisão regulatória.”
4) Quais vacinas podem ser corrigidas de maneira mais prática para capturar as variantes?
As vacinas que usam como antígeno apenas o RNA, material genético do vírus, são as mais fáceis de se adaptar. É o caso da Pfizer, que cogita criar formulação para uma terceira dose.
“Vamos avaliar a aplicação de mais um ‘booster’ no regime atual da vacina e nos preparar para uma adaptação rápida da vacina contra novas variantes”, afirmou Ugur Sahin, presidente da BioNTech, parceira da Pfizer no desenvolvimento da vacina.
Vacinas como a CoronaVac, porém, usam um vírus inteiro inativado (morto) como antígeno. Nesse caso seria preciso produzir o ingrediente ativo da vacina com amostras das novas variantes do Sars-CoV. É um processo que, para as vacinas de gripe, já é feito anualmente.
Já para a vacina Oxford/AstraZeneca, o processo de adaptação pode ser mais complicado. Esse imunizante é feito de um adenovírus, um outro gênero de patógeno, que é modificado para carregar a proteína espícula do coronavírus. Seria preciso recriar essa criatura híbrida.
5) É possível uma vacina só combater várias variantes, incluindo as que venham a surgir?
A princípio, sim. Para obter essa proteção mais robusta, é preciso escolher como antígeno uma proteína do vírus que esteja associada a um trecho do genoma do Sars-CoV-2 pouco propenso a sofrer mutações. Uma vacina experimental no laboratório de Gazzinelli teve bom resultado usando essa estratégia em cobaias.
6) Quando tomar a decisão sobre trocar ou não a vacina em uso?
A decisão de mudar a fórmula de uma vacina e atrasar a produção de um imunizante precisa ser tomada com cautela.
Talvez as novas variantes atrapalhem a eficácia geral das vacinas contra reinfecção, mas o imunizante continua protegendo contra a forma grave da doença. Nesses casos, o transtorno de trocar o antígeno pode não valer a pena.
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