Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 23 de agosto de 2023
Eram 8h do dia 10 de agosto quando a brasileira Isabela Burgos, de 25 anos, e seu marido acessaram a sala de parto do Hospital de Cascais Dr. José de Almeida, em Lisboa (Portugal), para dar boas-vindas à filha. As horas que sucederam o nascimento, no entanto, foram de estresse. A unidade hospitalar alegou “suspeita” de que a mãe poderia ter usado maconha – sustância legalizada no país desde 2001 – antes do parto, chamou a polícia e ameaçou retirar a guarda da criança, mesmo com resultado negativo após exames toxicológicos.
Segundo o pai da criança e companheiro de Isabela, identificado como Markito Lana, o casal se sentiu desconfortável assim que chegou ao hospital. Em relato publicado nas redes sociais, ele diz que uma médica teria comentado: “ah, é um casal de brasileiros”. Preocupado com um sangramento identificado ainda em casa, quando a mulher entrou em trabalho de parto, ele diz ter ignorado o comentário.
Depois de outras situações de mal-estar, como a insistência para a criança ser vacinada contra a coqueluche e uma discussão acerca do tempo exato da gestação, o parto teve início. A bebê nasceu às 10h40min. As médicas responsáveis pelo parto, segundo o pai, foram carinhosas e, naquele momento, tudo correu bem.
Após serem transferidos para outro pavimento do hospital, Markito diz que uma enfermeira pediu que ele se retirasse do quarto para uma avaliação do tampão. O marido teria dito, então, que não sairia do quarto, e que a enfermeira poderia ficar à vontade para realizar o procedimento em sua presença. Em seguida, ele relata que a enfermeira afirmou ter que levar a criança com ela, para fazer “alguns testes”.
“Ela queria levar. Isabela falou que eu ia acompanhar, e aí ela desistiu e falou que ia ver ali mesmo. E aí falou: ‘você vai ter que sair daqui, porque visitante não pode ficar a partir das 20h’. Eu falei: ‘olha, eu não sou visitante, eu sou acompanhante’. Ela ficou super irritada e falou que ia chamar a supervisora dela”, conta o pai.
Algumas horas depois, às 20h, no entanto, em vez de uma supervisora, agentes da Guarda Nacional Republicana é que teriam chegado para conversar com o casal, que não entendeu a repercussão da situação. Enquanto os agentes conversavam com o pai, a equipe pediátrica da unidade contou a Isabela que, com acesso ao prontuário e histórico médico, haviam descoberto que ela era “usuária de cannabis”, e que o fato colocava a criança em risco de “morte súbita”.
“Nove meses atrás, no Hospital de Paredes, o médico perguntou se ela era usuária de algum tipo de substância e ela falou que usava cannabis, mas que, desde que soube que estava grávida, não usou mais. Usaram isso para falar para a Isabela que a bebê ia morrer de morte súbita, que qualquer quantidade de THC no leite pode matar a criança. Disseram que ela não poderia amamentar”, diz o pai.
A jovem e a bebê foram, então, submetidas a um exame toxicológico para identificar a presença de substâncias no organismo. Antes do resultado, a mãe diz que foi ameaçada por uma médica. A profissional teria dito a ela que, “em 20 minutos”, poderia entrar em contato com a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) e fazer com que ela perdesse a guarda para o hospital.
Na sexta-feira, dia 11 de agosto, mesmo após o resultado do exame, o CPCJ foi acionado, e duas representantes estiveram no hospital. Segundo o pai, foram colhidas assinaturas, dele e de Isabela, sem explicações. No sábado, o casal descobriu que havia assinado a retenção da criança no hospital, até que as autoridades visitassem a casa deles e comprovassem que o ambiente era apto para o bebê.
Mãe e filha só foram liberadas na segunda-feira, à noite, quando o caso já havia repercutido em redes sociais e na imprensa local. O casal planeja, agora, entrar com um processo contra o hospital e, sobretudo, contra a médica que se apresentada como chefe do departamento de pediatria.
“Estou esperando para saber quais ações a gente pode ter contra essa senhora e esse hospital. Se ela é chefe dessa ala, tinha que ser uma senhora com um pouco mais de bom senso e respeito a uma mãe, a um ser que acabou de chegar, a uma família”, explica o pai, que considera ter sofrido preconceito: “A gente vai seguir na luta porque esse preconceito não pode existir.
Agora, em casa, a família vive, pelos próximos seis meses, a aflição da possibilidade de perda da guarda da criança a qualquer momento.”
“Os advogados aqui são caros, alguns amigos enviaram algumas ajudas, e vamos ver como vou fazer para dar continuidade com isso. Se alguém conhecer algum advogado que tenha interesse em ajudar, seria muito bom. São coisas inaceitáveis. Inaceitável de se fazer com uma mulher que acabou de parir uma vida, um neném.” As informações são do jornal O Globo.
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