Sexta-feira, 01 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 31 de julho de 2025
A protagonista do primeiro conto de Cadelas de Aluguel, da mexicana Dahlia de la Cerda, é uma jovem que descreve o processo de realizar um aborto completamente sozinha. O texto seguinte é narrado pela herdeira de um cartel mexicano que se revolta com o feminicídio de uma amiga.
“As mulheres são muito mais do que a violência que vivemos.” A frase da escritora, uma das convidadas da 23ª Flip, resume bem um tema em comum entre ela e outras convidadas do evento. “Em muitas tramas literárias tradicionais, as mulheres assassinadas são apenas um recurso para que a história avance, para que um homem brilhe resolvendo o caso”, afirma Dahlia. A escritora diz que o que ela e outras colegas da Flip estão fazendo é colocar as vítimas no centro, mostrando como reagem a ela.
“É, antes de tudo, um livro sobre a fúria feminina. Sobre como, em contextos adversos, nós mulheres fazemos o que podemos com o que temos. Acredito que essa visão retira a força emancipatória de nossas vidas”, diz.
Dahlia participa de uma mesa no sábado, 2, com a argentina Dolores Reyes. A autora de Cometerra e Miséria Reyes incorpora elementos do realismo mágico para falar de marginalização, maternidade e violência de gênero. “As protagonistas de nossas histórias são mulheres que habitam as margens, que sobrevivem nas periferias, e isso gera uma conexão muito potente”, diz Dahlia.
A chilena Alia Trabucco Zerán, também convidada da Flip, fez um caminho semelhante ao de Dahlia, mas por intermédio da não ficção. Em As Homicidas (Fósforo, 2023), livro com o qual ganhou o British Academy Booker Prize de 2022, ela conta histórias reais de mulheres assassinas, suas motivações e a forma como foram tratadas pelo sistema judicial e pela opinião pública.
“As mulheres transgressoras, não só as assassinas, mas as transgressoras, em geral, sempre são julgadas mais severamente por desafiarem as normas de feminilidade, de gênero, mesmo quando sua outra transgressão é um assassinato”, disse ela ao Estadão.
A periferia e o trabalho doméstico, temas presentes no trabalho de Lilia, também aparecem em Limpa, romance de Alia.
Entre as autoras latino-americanas em destaque nesta Flip, há ainda grande expectativa quanto à participação da mexicana Cristina Rivera Garza. Ela conquistou o prêmio Pulitzer em 2024 por O Invencível Verão de Liliana, que conta a história de Liliana Rivera Garza, sua irmã, assassinada em julho de 1990 pelo ex-namorado. O caso foi arquivado.
Alia Trabucco Zerán, que se formou em Direito antes de virar-se para a literatura, diz que a obra tem “certa semelhança com As Homicidas em seu trabalho com o material judicial como material literário”.
Dahlia de la Cerda também traça comparações: “Não escrevemos sobre o feminicida, nem focamos tanto o crime, mas em honrar a memória das mulheres assassinadas”. Cristina também vai participar da Flip no sábado. A mesa, que ela vai dividir com María Negroni, argentina elogiada por sua autoficção, começa às 17h.
A presença dessas mulheres na Flip, discutindo temas tão interligados, não é uma coincidência. “Vivemos nos últimos dez anos muito concentradas nos últimos cinco, uma explosão dessas autoras latino-americanas. Brinco que podíamos fazer uma Flip só com elas, pela qualidade do que estão publicando”, diz Ana Lima Cecilio, curadora desta edição.
“Quando o público começa a ficar mais jovem, as mulheres de 20, 30 anos, que começam a ler, percebem que ler um livro de uma autora latino-americana – que vive muitos problemas parecidos com os do Brasil, que tem essa mistura de uma coisa local, quase folclórica, mas também está ligado ao que acontece globalmente – diz muito mais a respeito da nossa vida.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Os comentários estão desativados.