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Colunistas A voz que ninguém quer ouvir

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Um dos bens mais preciosos de que dispomos é o silêncio interior. (Foto: Freepik)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Um dos bens mais preciosos de que dispomos é o silêncio interior. Bem esse que o mundo moderno, através dos mais variados subterfúgios, tenta nos furtar, aliciando-nos a nos entregarmos de corpo e alma ao alarido e à dispersão, em uma farta variedade de manifestações.

Se temos ciência do real valor deste bem, sabemos que todo santo dia temos que travar o bom combate para defendermos nossa solitude e, com ela, resguardar a nossa sanidade mental, moral e espiritual.

Como bem nos lembra Umberto Eco, a cultura de massa não é um elemento externo, presente apenas na caixola dos outros – nada disso. Todos nós estamos imersos nela, somos afetados direta ou indiretamente por ela e, em maior ou menor medida, a dita-cuja se faz presente dentro de nós (lá ele!), perturbando e deformando o nosso modo de ser, turvando a nossa percepção de tudo, de todos e de nós mesmos.

Sim, temos que pelejar um dia de cada vez, mas o Tempo Quaresmal é um momento propício para reforçarmos as trincheiras e defendermos a nossa cidadela interior, através das obras penitenciais apresentadas pela Tradição Cristã ou por meio das sugestões feitas pelo Papa Leão XIV agora em fevereiro que, de certa forma, vão de encontro a algumas das muitas fragilidades presentes na alma do homem moderno. Presentes na nossa alma.

Sejam as penitências recomendadas pela tradição ou aquelas sugeridas pelo Bispo de Roma, todas elas são – como direi? – excelentes ferramentas para nos levar a tomarmos consciência do quão débil é a nossa vontade e do quão fraco é o nosso ânimo.

Ora, basta firmarmos a intenção de não acessarmos as redes sociais ou de não darmos trela para futricas e fofocas durante a Quaresma que, em dois palitos, ficamos em pandarecos; basta decidirmos que não iremos comer doces, tomar café ou algo do gênero, que nossa boca começa a salivar como se fôssemos um cão raivoso. Sim, isso é uma hipérbole; mas, exageros à parte, nós sabemos muito bem que, na real, não somos de nada.

Gostamos do alarido porque ele silencia a voz da nossa consciência, que apenas pode ser devidamente ouvida quando nos permitimos recolher em nossa solitude interior. Amamos estar dispersos, afastados de tudo aquilo que é “mais nós do que nós mesmos”, para nos sentirmos gostosamente satisfeitos com nossa mediocridade nada original, vivendo apartados de uma vida com profundidade histórica para abraçar hedonisticamente uma vida entregue a uma desordenada perspectiva histérica.

Sim, eu sei – todo mundo sabe – que os indivíduos do mundo moderno imaginam que são o bicho-da-goiaba e, por isso mesmo, penso que seria tremendamente profícuo se, neste Tempo Quaresmal, nos permitíssemos testar os limites da nossa força de vontade, nos desnudando perante a nossa consciência, diante do silêncio que ninguém mais quer ouvir para, quem sabe, podermos nos reconciliar conosco mesmos e nos aproximar de forma verdadeira de Deus e dos nossos semelhantes.

* Dartagnan da Silva Zanela – professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “O Sepulcro Caiado”, entre outros livros.

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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