Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Por Gisele Flores | 27 de fevereiro de 2026
Haroldo de Souza, a voz que narra o Grenal há mais de cinco décadas, chega ao seu clássico de número 200.
Foto: Rádio GrenalNo Rio Grande do Sul, o clássico entre Grêmio e Internacional não é apenas futebol. É identidade, é herança, é discussão de domingo, é abraço ou silêncio na segunda-feira. E, ao longo de meio século, uma voz ajudou a traduzir essa montanha-russa de sentimentos: Haroldo de Souza.
Neste domingo, 1° de março de 2026, aos 81 anos, Haroldo de Souza, o “Magrão”, alcança a marca histórica de 200 Grenais narrados na carreira. Um número que impressiona — mas que não traduz completamente o que representa. “Narrar 200 Grenais é ter vivido duzentas vidas diferentes em 90 minutos.”
“Eu não conhecia o Grenal”, recorda Haroldo. Quando desembarcou em Porto Alegre, em 1974, vinha de Belo Horizonte, acostumado a grandes clássicos. Em 1975, no segundo confronto que narrou, lançou a frase que se tornaria sua assinatura histórica: “Estou realizando, em Porto Alegre, o maior clássico do futebol brasileiro.” Na época, muitos acharam exagero. Mas era intuição. Era sensibilidade. Era o olhar de quem percebeu que ali havia algo diferente. “O Grenal é uma vida feita em 90 minutos.”
Em um estado dividido entre azul e vermelho, Haroldo conquistou algo raro: respeito dos dois lados. “Aqui, nem Inter, nem Grêmio. Mas os dois, amando profundamente, para poder realizar um bom trabalho.” Paranaense de nascimento, torcedor do Corinthians fora do Sul, fez da neutralidade um compromisso profissional. Ele não narra para uma torcida. Ele narra para a emoção. “Cada Grenal é diferente. Pode até terminar 0 a 0. Mas nunca termina vazio.”
Duzentos clássicos narrados equivalem a 18 mil minutos de bola rolando. São 300 horas apenas de tempo regulamentar — 12 dias e meio narrando sem parar. Se somarmos pré-jogo, intervalo e pós-partida, são mais de 500 horas dedicadas exclusivamente ao clássico. São 52 anos atravessando gerações, do antigo Olímpico ao Beira-Rio, até a moderna Arena do Grêmio. Haroldo viu craques como Falcão, Figueroa, Renato Portaluppi, Fernandão e D’Alessandro escreverem capítulos inesquecíveis. “Cada lance narrado é um pedaço da minha vida.”
Sua voz não apenas narra gols, mas cria bordões que se tornaram parte do vocabulário do torcedor. “Adivinhe!”, ou ainda “As bandeiras estão tremulando torcedor do Brasil”. Trilhas sonoras de conquistas e derrotas que atravessaram rádios de pilha, transmissões em AM, FM e streaming. O mundo mudou, mas a essência permaneceu.
Para o comunicador, chegar ao Grenal 200 é mais do que atingir uma marca. É transformar trabalho em patrimônio afetivo. É ser trilha sonora da memória coletiva de um povo. Haroldo de Souza não narrou apenas partidas. Ele narrou sentimentos. Deu voz à paixão que nasce na favela, atravessa a mansão, entra no rádio do táxi, na cozinha da casa simples, na sala de estar do apartamento de luxo.
Nessa trajetória, Haroldo também ajudou a consolidar a Rádio Grenal, emissora da Rede Pampa que se tornou referência mundial ao dedicar sua programação exclusivamente ao futebol e, em especial, ao Grêmio e Internacional. “Eu pensei comigo e disse para a Marjana Vargas (diretora de Conteúdo da Rede Pampa): eu vou encerrar minha carreira aqui na Rádio Grenal.” Hoje, a Rádio Grenal é símbolo da paixão pelo futebol, e Haroldo é sua voz mais emblemática.
O narrador dos 200 Grenais também sonha em deixar um legado para sua filha, Joaquina, de apenas oito anos. “Ela diz: pai, eu quero narrar futebol igual ao senhor. Se ela quiser, eu ensino tudo aquilo que eu sei. Seria fantástico a Joaquina substituindo o pai dela, narrando futebol.” O sonho da filha é narrar. O sonho do pai é vê-la feliz. Se for no microfone, será continuidade. Se for em outro caminho, será orgulho do mesmo jeito.
Para o futuro, um futuro bem distante, Haroldo revela um desejo que mistura ousadia e poesia: “Morrer narrando um Grenal, na hora do gol. O grito de gol e tchau, minha gente.” Mas, enquanto isso, nada de pensar em aposentadoria. Haroldo de Souza, o “Narrador dos 200 Grenais” já está pronto para transformar mais 90 minutos em eternidade. (por Gisele Flores)
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