Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 19 de abril de 2026
O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, diz que não há contradição entre aumentar despesas consideradas importantes pelo governo e fazer o processo de ajuste nas contas públicas. “Temos duas premissas: realizar despesas que são fundamentais no desenvolvimento econômico e social e seguir um processo contínuo de racionalização dessas despesas. Não há contradição entre essas duas coisas”, afirma Moretti ao jornal Folha de S.Paulo, na primeira entrevista após assumir o cargo.
O governo Lula (PT) tem como desafio conciliar essas duas mensagens, sobretudo em ano eleitoral e diante das investidas da oposição para explorar o aumento da dívida pública e colocar a revisão de gastos como corte de benefícios. A estratégia já vem sendo adotada por aliados do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL).
Moretti afirma que o governo seguirá com o controle de despesas em ano eleitoral. Por outro lado, o Executivo tem discutido ações para conter os preços dos combustíveis, facilitar o financiamento à casa própria e reduzir o endividamento – sobre as quais o ministro nega viés eleitoral. Leia abaixo alguns trechos da entrevista.
– No PLDO (projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2027, o governo buscou sinalizar compromisso com as contas. Para isso, vai precisar continuar com as revisões de gastos que vêm sendo adotadas, mas que são impopulares em ano eleitoral. Como conciliar as mensagens? “Tomamos uma série de medidas de revisão de despesa desde 2024, que deram mais resiliência ao arcabouço fiscal, ao cumprimento das metas. As regras foram seguidas. Afastamos qualquer risco de descumprimento e hoje dispomos de um conjunto de instrumentos, seja pelo lado da despesa, seja pelo lado da receita, que nos permitem seguir a trajetória de consolidação fiscal. A revisão de despesas se dá para racionalizar o gasto público ao mesmo tempo que prioriza as despesas que têm maior efeito redistributivo.”
– Onde ainda há necessidade de fazer revisões de despesas? “É um processo contínuo. Fizemos medidas de alinhamento de uma série de despesas ao arcabouço fiscal. Cito como exemplo uma medida provisória que está em processo de sanção após pactuação com o Congresso para racionalizar as despesas do seguro-defeso (benefício a pescadores artesanais). O benefício será pago a quem realmente necessita.”
– Há preocupação de que a oposição use isso como corte de benefícios? “A população nos cobra diariamente maior qualidade no uso do orçamento público. Não vemos contradição. Ampliamos despesas relevantes para a sociedade, valorizamos o salário mínimo acima da inflação, o que não foi feito nos últimos governos. Temos duas premissas: realizar despesas que são fundamentais no desenvolvimento econômico e social e seguir um processo contínuo de racionalização dessas despesas. Não há contradição entre essas duas coisas. O relevante é que mostremos à população o nosso cuidado com o dinheiro do contribuinte. Estamos aperfeiçoando essas políticas, com alinhamento ao arcabouço fiscal, racionalizando cadastramento, sem prejuízo da preservação e até ampliação dos direitos das pessoas.”
– Combate a fraudes e uso irregular, é isso? “Exatamente. Da mesma forma, a despesa de pessoal. Recebemos o Estado absolutamente desmontado. Reestruturamos carreiras, fizemos reajustes. Agora, em 2027, ativaremos um gatilho para dar mais estabilidade à despesa de pessoal, criando um limite para o crescimento dessas despesas. Esses dois processos convergem.”
– Prevê alguma nova medida de revisão de gastos? “As ações são aquelas aprovadas pelo Congresso. Houve em algum momento uma leitura de agentes econômicos de que a despesa explodiria como proporção do PIB, e eu, muito respeitosamente, não concordo com a crítica. Estamos mostrando que a despesa segue estável em proporção do PIB, e, para isso, repito, é fundamental que os instrumentos sigam operando normalmente num ano como esse.
– Especialistas dizem que a revisão não é um “corte puro-sangue”, o governo corta para abrir espaço para outras despesas. Como avalia essa crítica?
Respeito as críticas. Agora, afastamos dois caminhos quando iniciamos o curso da atual política fiscal. O primeiro foi o de aprofundamento do déficit público. Do outro lado, havia aqueles que diziam ‘é preciso fazer um ajuste fiscal cortando severamente as despesas’. Não concordamos com esse caminho. Não faríamos um ajuste fiscal em detrimento dos mais pobres. Os resultados estão colocados em publicações técnicas. É o caso dos efeitos da política de valorização do salário mínimo.”
– Os números que o sr. fala são os da revisão de gastos? “Exatamente. (A economia é) em torno de R$ 90 bilhões em 2025 e 2026 e R$ 100 bilhões em 2027. Só a limitação para despesas de pessoal em 2027 nos dá R$ 8 bilhões, quase 10% do valor.”
– Se os resultados são tão bons, por que há piora na avaliação do governo? As pessoas que perdem benefícios porque, na visão do governo, não deveriam ter direito não estão conseguindo entender isso? “Não é que na visão do governo elas não devem ter direito. O que não se pode fazer é desorganizar o Estado para que se atenda a pessoas que não devem ter acesso a determinado programa porque não têm direito. Do contrário, era um processo caótico que nós herdamos em 2023. E aí eu não estou politizando o debate. São dados técnicos. Ou não é verdade que não havia recursos no Orçamento para pagar o benefício de R$ 600 do Bolsa Família?”.
– Em 2027, há espaço para novo déficit, e as projeções de dívida seguem elevadas. Há necessidade de rever parâmetros do arcabouço para a despesa crescer menos que o limite de 2,5%? “Essa foi exatamente a medida que adotamos para 2027 em relação às despesas de pessoal. Enquanto houver déficit primário, 20% das despesas sujeitas ao arcabouço estarão limitadas ao piso.”
– Mas todas as demais vão poder crescer mais? “É, mas estarão limitadas pelo arcabouço de qualquer modo. No Brasil, às vezes há um debate excessivo sobre regras. Minha posição é que nós deveríamos focar mais os instrumentos fiscais. Não adianta rever regras se não dispomos dos instrumentos para fazer o controle da despesa.” As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
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