Sábado, 09 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de maio de 2026
A decisão da Arábia Saudita de negar aos Estados Unidos o uso de seu espaço aéreo e de bases militares no país levou o presidente americano, Donald Trump, a interromper o “Projeto Liberdade”, operação naval criada para ajudar embarcações presas há semanas – e, em alguns casos, meses – no Estreito de Ormuz a deixarem a região. O episódio expôs um raro atrito entre Washington e um de seus aliados históricos no Oriente Médio, e evidenciou a resistência saudita a uma nova escalada militar contra o Irã.
Anunciada por Trump no dia 3, a operação previa apoio militar americano a petroleiros e navios comerciais bloqueados no estreito após ataques iranianos em resposta à ofensiva conduzida por EUA e Israel desde fevereiro. Sem acesso às bases sauditas e ao espaço aéreo do Golfo, porém, o plano se tornou inviável, já que exigia apoio de caças, helicópteros de ataque, aviões de reabastecimento e cobertura aérea constante.
Segundo autoridades americanas e sauditas ouvidas pelo New York Times e pela NBC News, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman, comunicou diretamente a Trump que Riad não autorizaria o uso de território saudita na operação. De acordo com o Guardian, os sauditas também vetaram o uso da base aérea Prince Sultan, considerada estratégica para qualquer missão militar americana no Golfo.
Após uma série de telefonemas envolvendo Trump, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente, o republicano anunciou na terça-feira a suspensão do projeto, alegando “avanços” nas negociações com o Irã. Trump não mencionou publicamente a recusa saudita.
A decisão do príncipe herdeiro surpreendeu autoridades americanas e forçou Trump a abandonar o plano menos de 24 horas após lançá-lo, segundo o New York Times. A publicação afirma ainda que autoridades sauditas consideraram a operação insuficientemente planejada e temiam que ela provocasse uma escalada militar direta com Teerã.
Mudança de postura
A crise revelou uma mudança importante na postura saudita. Embora Mohammad bin Salman tenha defendido inicialmente uma ofensiva mais dura contra Teerã e apoiado ações mais agressivas contra o regime iraniano, segundo autoridades americanas, Riad passou nos últimos anos a priorizar estabilidade regional e negociações diplomáticas.
Segundo o New York Times, essa mudança reflete a estratégia saudita de transformar o país em um centro global de negócios e turismo, projeto que depende diretamente de estabilidade econômica e segurança regional. Analistas e autoridades sauditas ouvidos pelo jornal afirmam que uma guerra prolongada no Golfo ameaça diretamente esses objetivos.
A negativa saudita também tende a ampliar o poder de barganha iraniano nas negociações em andamento. Autoridades iranianas afirmaram nesta semana que Teerã e Washington discutem uma proposta temporária para reabrir o Estreito de Ormuz e interromper hostilidades por 30 dias enquanto tentam negociar um acordo mais amplo envolvendo o programa nuclear iraniano.
Segundo o Haaretz, o Irã vê o controle sobre o estreito como um de seus principais instrumentos de pressão e tenta transformar o atual impasse militar em vantagem diplomática nas negociações com Washington.
Temor de nova escalada
De acordo com analistas e autoridades ouvidas pelo Guardian e pelo jornal israelense Haaretz, a Arábia Saudita avaliou que o “Projeto Liberdade” poderia levar diretamente à retomada da guerra no Golfo. O Irã já havia alertado que trataria escoltas militares americanas a petroleiros ou ataques contra embarcações iranianas como violação do cessar-fogo parcial firmado em abril.
Riad também temia virar alvo de novos ataques iranianos, cenário já vivido pelo reino em ofensivas anteriores contra estruturas da Aramco, a embaixada americana, a base aérea Prince Sultan e o campo petrolífero de Shaybah.
Segundo o Haaretz, autoridades sauditas concluíram que a operação era praticamente uma “fórmula certa” para a retomada da guerra. O jornal afirma que Riad receava sofrer ataques semelhantes aos lançados recentemente contra os Emirados Árabes Unidos, que vêm sendo um dos principais alvos iranianos no Golfo.
Nos bastidores, diplomatas sauditas passaram a demonstrar crescente frustração com a condução errática de Trump no conflito. Segundo o New York Times, autoridades em Riad avaliam que os objetivos estratégicos americanos permanecem pouco claros e sujeitos a mudanças repentinas, frequentemente surpreendendo aliados dos EUA na região. (As informações são de O Globo)
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!