Domingo, 07 de junho de 2026
Por Alexandre Teixeira de Castilhos Rodrigues | 7 de junho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Há quase dois mil anos, na Roma Antiga, multidões lotavam arenas para assistir a combates de gladiadores, caçadas de feras e espetáculos grandiosos que faziam o chão tremer e os corações acelerarem. O povo vibrava, gritava, apostava e se emocionava.
Observando aquele fenômeno, o poeta romano Juvenal, por volta do ano 100 d.C., cunhou uma expressão que atravessaria os séculos: Panem et Circenses — pão e circo.
A crítica era simples e profunda. Enquanto a população recebia alimento e entretenimento, esquecia por algumas horas as tensões sociais, as dificuldades da vida cotidiana e os problemas do Estado. O espetáculo servia como um grande manto capaz de cobrir as preocupações que afligiam a sociedade.
Passaram-se dois milênios. Os gladiadores desapareceram. Os leões voltaram para as savanas. As espadas deram lugar às chuteiras.
Mas a necessidade humana de sonhar continua exatamente a mesma. Talvez seja por isso que a Copa do Mundo seja o maior espetáculo esportivo da Terra.
Durante algumas semanas, guerras parecem mais distantes, disputas políticas perdem espaço nas manchetes e milhões de pessoas passam a falar uma linguagem universal: a do futebol.
É como se o planeta inteiro entrasse em um grande intervalo coletivo.
– Uma pausa para respirar.
– Uma pausa para sonhar.
Quando a primeira Copa do Mundo foi realizada, em 1930, apenas 13 seleções participaram da competição. Agora, em 2026, o torneio alcança uma dimensão jamais vista: 48 seleções estarão disputando a taça mais desejada do futebol.
O mundo ficou maior dentro das quatro linhas. Novas bandeiras surgem no horizonte.
O Uzbequistão fará sua estreia histórica, tornando-se a primeira ex-república soviética da Ásia Central a disputar uma Copa do Mundo. A Jordânia alcança o maior feito esportivo de sua trajetória. Curaçau, pequeno território caribenho, escreve uma página inédita em sua história. E Cabo Verde confirma a força crescente do futebol africano, mostrando que talento e paixão não dependem do tamanho do mapa.
Cada seleção carrega mais do que jogadores. Carrega sonhos. Carrega a esperança de um povo inteiro.
O Brasil, por sua vez, permanece como uma das maiores histórias da competição. É a única seleção presente em todas as Copas do Mundo realizadas até hoje. Vinte e três participações. Cinco títulos. Milhões de torcedores. Mas também uma espera que já dura tempo demais. A última conquista veio em 2002. De lá para cá, passaram-se vinte e quatro anos.
Minha filha, Maria Laura, nasceu em 2006. Neste ano completa vinte anos de idade. Cresceu ouvindo histórias sobre Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Dunga e tantos outros heróis da bola. Mas jamais viu o Brasil levantar uma Copa do Mundo.
Eu, nascido em 1971, tive o privilégio de assistir a duas conquistas inesquecíveis: a de 1994, nos Estados Unidos, e a de 2002, na Coreia e no Japão.
Ela conhece essas vitórias apenas por vídeos, fotografias e relatos. Uma geração inteira cresceu sem experimentar aquela sensação única de ver o capitão brasileiro erguer a taça dourada diante do mundo. Talvez por isso exista tanta expectativa em torno desta nova seleção.
Sob o comando de um experiente treinador italiano, Carlo Ancelotti, reconhecido mundialmente por sua capacidade tática, renasce a esperança de organizar um grupo formado, em sua maioria, por atletas que construíram suas carreiras fora do país. Muitos deixaram o Brasil ainda adolescentes. Vestiram cedo as camisas dos grandes clubes europeus. Hoje, retornam para vestir algo maior: a camisa da Seleção Brasileira.
Na próxima quinta-feira, dia 11 de junho, o México enfrentará a África do Sul no lendário Estádio Azteca, às 16 horas de Brasília. Será o toque inicial desta gigantesca celebração do esporte.
E no sábado, o Brasil fará sua estreia diante do Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Iorque, palco que também receberá a grande final em 19 de julho.
Até lá, bilhões de pessoas estarão ligadas por um mesmo sentimento. Alguns dirão que é apenas futebol. Talvez tenham razão. Mas talvez seja mais do que isso.
Porque, em tempos de guerras, conflitos, intolerância e violência, o futebol continua sendo uma das poucas linguagens capazes de reunir povos diferentes diante da mesma emoção.
Por noventa minutos, deixamos de ser adversários ideológicos, nacionais ou culturais. Voltamos a ser apenas seres humanos torcendo, sofrendo, sorrindo e acreditando. E, quem sabe, seja exatamente essa a verdadeira magia da Copa do Mundo.
Não a taça. Não os gols. Não os títulos.
Mas a capacidade de lembrar que, apesar de todas as diferenças, ainda conseguimos sonhar juntos.
Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor – castilhosadv@gmail.com – @castilhosadv

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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