Quarta-feira, 05 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 4 de agosto de 2026
Lançada oficialmente nessa terça-feira (4), a 72ª Feira do Livro de Porto Alegre (30 de outubro a 15 de novembro) terá um avanço nos aspectos de diversidade e inclusão: a escolha da escritora Heloisa Pires Lima como patrona. Trata-se da primeira mulher negra a exercer a função em 71 anos de realização do evento, um dos mais tradicionais do segmento no País.
O nome foi anunciado durante cerimônia no espaço de eventos do Master Express Grande Hotel (Centro Histórico). Autoridades e protagonistas do setor elogiaram a decisão da Câmara Rio-grandense do Livro (CRL), responsável pela organização da feira. Também enalteceram o fato de a entidade ser atualmente presidida por uma mulher, Roseni Siqueira Kohlmann
A vice-prefeita Betina Worm destacou que marcos desse tipo refletem uma sociedade na qual se amplia a presença de figuras femininas em espaços de destaque: “Como primeira vice-prefeita de Porto Alegre em 254 anos de história desta cidade, não posso deixar de destacar o simbolismo deste momento, em que as mulheres conquistam espaços, lideram instituições, escrevem histórias e ajudam a construir o futuro da capital gaúcha”.
Titular da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), Liliana Cardoso também se manifestou: “Ter uma mulher negra como patrona da Feira do Livro é reconhecer e valorizar a nossa ancestralidade. Após mais de 300 anos de escravidão, em que tantas mulheres negras foram privadas até mesmo do direito à alfabetização, esse protagonismo representa uma conquista coletiva”.
O ineditismo da escolha é reforçado pela constatação de que apenas dez dos patronos das 72 edições do tradicional evento cultural na Praça da Alfândega são mulheres. E que, antes de Heloisa, somente uma pessoa negra foi designada para a honraria: o escritor Jeferson Tenório, em 2020.
Trajetória
Heloisa Pires Lima nasceu na capital gaúcha em 1955 e mora em São Paulo desde os 9 anos. Cursou Psicologia na PUCSP e Ciências Sociais na USP, instituição pela qual também concluiu mestrado em Antropologia e doutorado em Antropologia Social (2005). Sua produção acadêmica tem priorizado questões teóricas sobre as fronteiras entre História, Antropologia e representações culturais, com ênfase em relatos de viagem e arte. O alvo de suas pesquisas tem sido o século 19.
Sua aproximação com a literatura se dá no âmbito da biblioteca da Ibejí Casa Escola – projeto que desenvolve em São Paulo desde juventude. Heloisa é também educadora e passou à criação literária após constatar a ausência ou inadequação de personagens negros no universo da literatura infanto-juvenil. Além disso, coordena para uma editora carioca uma coleção de livros no segmento, protagonizados por personagens afrodescendentes.
Em 1998, publicou Histórias da Preta, pela editora Companhia das Letrinhas, compêndio que aborda os vários aspectos da história de uma construção da identidade de uma menina negra. A obra vem sendo adotada por inúmeras escolas públicas e particulares. Também foi responsável pela criação da Selo Negro Edições, do Grupo Summus Editorial, além de ter atuado como editora entre 1999 e 2000.
É também uma das autoras do volume “De Olho na Cultura: Pontos-de-Vista Afrobrasileiros”, obra vencedora do I Concurso Nacional de Produção de Livros e Vídeos Sobre História, Cultura e Literatura Afrobrasileiras, modalidade “Livros de Cultura Afrobrasileira.
(Marcello Campos)
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