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Brasil Aquele passageiro que desobedeceu ordem de voltar para o seu lugar foi o único que sobreviveu. Outros 122 morreram

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Encontro reuniu sobrevivente (E) do acidente com um avião da Varig em 1973 e ex-comissário da companhia. (Crédito: Reprodução)

“Só uma criança se salvou. Um garoto muito esperto. Gostaria de saber onde ele anda até hoje.” Foi assim que o ex-comissário de bordo da Varig José Ribeiro, 85 anos resumiu sua curiosidade sobre o paradeiro do único passageiro sobrevivente do acidente com o Boeing 707 da companhia, próximo ao Aeroporto de Orly, em Paris (França), em 1973.

Mal sabia Ribeiro que seu pedido resultaria em um encontro com Ricardo Trajano, o sobrevivente, hoje com 63 anos. Trajano viajou de Belo Horizonte (MG) para conhecer o ex-comissário. Chegou na casa de Ribeiro como se fosse um velho amigo e contou detalhes de como driblou a morte, da qual diz ter recebido “abraços e beijinhos”.

O ex-comissário vive há 50 anos no Rio. Nasceu em Formiga, Minas Gerais, cidade a que se refere no título de seu livro “O Menino de Formiga que Correu o Mundo”, que escreveu aos 84 anos.

Com a obra que acabara de ganhar do ex-comissário em mãos, Trajano detalhou, entre um café e outro, como “nasceu de novo” após o acidente em Paris. Diferentemente do que o ex-comissário pensava, ele tinha 21 anos e já não era mais criança quando o avião da Varig fez uma aterrissagem forçada em um campo a poucos minutos do Aeroporto de Orly. O pouso aconteceu após um princípio de incêndio que fez uma fumaça tomar conta da aeronave. Foram 122 mortos, a maioria por asfixia.

“Transgressão” salvadora.

Trajano lembra que foi uma “transgressão” que o permitiu ser o único sobrevivente entre os passageiros (escaparam também 11 tripulantes): “A vida é engraçada. Escolhi o último lugar no avião. Sentei na janela, e, apesar de o avião estar lotado, nas duas poltronas do meu lado não sentou ninguém. O lugar que escolhi foi vital, porque foi lá atrás que começou a fumaça. As pessoas que a viram ficaram sentadas. Eu falei: ‘Não vou ficar’. Fui lá para frente e fiquei entre a galley [área de armazenagem e preparação de alimentos e bebidas] e a cabine. O chefe de equipe me mandou voltar para meu lugar. Não voltei. Minha transgressão me salvou”.

Trajano sofreu queimaduras nas costas e ficou em estado grave no hospital durante 81 dias. Chegou a ser dado como morto pela família, após ser confundido com um comissário. Um bilhete que escreveu no leito o identificou. Quando os pais receberam a notícia, o velório já estava encomendado. Virou festa. “Tenho 63 anos, mas, na verdade, 42. A data do meu renascimento é 11 de julho de 1973”, contou ele, que é casado e pai de duas filhas.

Há especulações de que armamentos militares transportados de forma errada tenham sido a causa do incêndio, mas um laudo atestou que um cigarro provocou fogo em um dos banheiros. No dia da tragédia, o ex-comissário estava no Rio quando recebeu a notícia de que o avião que saíra do Brasil havia sofrido o acidente. Ribeiro relata que os tripulantes sobreviventes eram seus amigos e lhe contaram o “horror da cabine”, com todos os passageiros amontoados em busca de ar.

Sem traumas.

Após a tragédia, Trajano, depois que se recuperou, pediu à Varig que lhe desse outra passagem. E voou para Londres (Inglaterra) de novo: “Até levei um amigo. Na hora que sentamos no avião, ele disse: ‘Ricardo, se você levantar, eu vou atrás de você!’”.

Trajano diz nunca ter tido sonhos ou pesadelos com o que aconteceu. Na hora de se despedirem, Ribeiro e Trajano trocaram telefones, contatos em redes sociais, endereços e todas as tecnologias para aproximar ainda mais o “menino de Formiga” que voou pelo mundo todo e o “garoto esperto” que se salvou. (AG)

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