Sexta-feira, 05 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de maio de 2018
“Absolutamente grátis! Seu horóscopo pessoal. Um documento de dez páginas”, dizia o anúncio publicado em um jornal francês no dia 16 de abril de 1968. Ele convidava os leitores a participar, sem saber, de um experimento inusitado. Tudo o que os interessados tinham que fazer era enviar seu nome, endereço, data e local de nascimento pelo correio, e receberiam um horóscopo e um perfil de personalidade.
Muitas das mais de 150 pessoas que escreveram ficaram tão impressionadas pela precisão do perfil que receberam de volta, que responderam ao autor do anúncio para agradecê-lo.
No total, 94% das pessoas se declararam satisfeitas e 90% disseram que seus familiares e conhecidos os reconheciam no perfil. No entanto, todos os que responderam o anúncio tinham recebido o mesmo documento: era o perfil de uma pessoa que tinha nascido na cidade francesa de Auxerre às 3h do dia 17 de janeiro de 1897.
Por trás de tudo isso, havia dois nomes que, por razões muito diferentes, entraram para a história. Um deles era o responsável pelo experimento, que encomendou de um astrólogo profissional o mapa astral e a interpretação psicológica enviada aos participantes. O outro era a pessoa cujo mapa astral foi enviado. A descrição de sua personalidade dizia coisas como “seu calor humano instintivo se alia ao intelecto e à engenhosidade (…). Possui um sentimento moral que é reconfortante: o de um cidadão digno e de bom senso (…) (cuja) vida encontra expressão na total devoção pelos demais…”.
Homem por trás
Esta pessoa com características com as quais tantos outros se identificaram, que havia nascido em Auxerre em janeiro de 1897, se tornou, na vida adulta, o médico Marcel Petiot, conhecido como um assassino em série na França, durante a Primeira Guerra Mundial.
Desde criança, Petiot era considerado como alguém de inteligência fora do comum, mas também com graves problemas de comportamento. Aos 17 anos ele foi preso por roubo, mas um juiz o libertou, após determinar que ele não tinha capacidade mental para enfrentar um julgamento.
Em 1917, quando servia ao exército francês durante a guerra, Petiot foi julgado por roubar mantas de outros soldados. Mais uma vez, ele foi inocentado sob a justificativa de sofrer de demência.
No entanto, apesar de seu estado mental, ele foi mandado novamente à frente de batalha, onde sofreu uma crise. Ao liberá-lo, alguns médicos insistiram que ele deveria ser mandado para uma instituição psiquiátrica.
Mesmo assim, Petiot conseguiu estudar e formar-se em Medicina em 1921. Ele abriu um consultório na cidade de Villaneuve, onde se tornou uma figura popular.
Na cidadezinha, ele chegou a se eleger prefeito em 1926, mas foi suspenso do cargo por quatro meses em 1930 após ser declarado culpado por fraude. Mais tarde, um de seus pacientes foi assassinado e outro paciente (que havia acusado Petiot de ter cometido o primeiro crime) também morreu misteriosamente.
O médico foi afastado definitivamente do cargo de prefeito, mas logo ganhou as eleições para vereador. Novamente, ele perdeu a cadeira na câmara de vereadores local depois de ser declarado culpado de roubar energia elétrica da cidade.
Em 1933, ele se mudou para Paris, onde continuou tendo uma boa reputação como médico, mas cometendo diversos delitos nas horas vagas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Petiot formulou um plano para acumular mais riqueza à custa dos judeus que tentavam escapar da França ocupada pelos nazistas: ele lhes oferecia ajuda, lhes injetava veneno, afirmando que era uma vacina para proteger-lhes de doenças e, depois de vê-los morrer lentamente, ficava com tudo o que eles tinham de valor e escondia seus corpos no sótão de sua casa.
Ironicamente, ele foi preso pela polícia secreta nazista, a Gestapo, em 1943, suspeito de estar ajudando os judeus e a resistência ao regime. Ele foi liberado meses depois, mas, em 1944, foi preso novamente. Trinta cadáveres haviam sido encontrados em sua casa.
Na época, ele recebeu o apelido de “Doutor Satã” nos jornais. Foi acusado de 27 homicídios e condenado por 26. Em seu julgamento, admitiu ter matado mais de 60 pessoas, mas afirmou que todas as vítimas eram alemãs. Petiot morreu na guilhotina em 1946. Seu horóscopo, que havia sido encomendado para o experimento científico, dizia que alguns anos depois disso ele teria “uma tendência a assumir compromissos na vida amorosa”.
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