Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de julho de 2015
Nascida em Portugal, a socióloga, pesquisadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e diretora da ONG Promundo Tatiana Moura se apaixonou pelo Brasil quando veio para cá fazer sua tese de Doutorado. Desde então, divide seu tempo entre o País e outros lugares do mundo. Mãe de Gabi, 7 anos, ela diz que a maternidade a move cotidianamente na busca por igualdade de sexo. Confira a seguir uma entrevista com ela.
Como está a divisão de tarefas entre homens e mulheres?
Tatiana Moura – Os homens fazem parte da revolução de gênero. As mulheres representam hoje 40% do mercado de trabalho, mas os homens não ocupam 40% do trabalho de cuidado com os filhos e atividades domésticas.
Ainda estamos muito longe de ter essa participação?
Tatiana – Varia de acordo com o país, mas a verdade é que eles só ocupam 20% desse espaço. Podemos começar a mudar pelas leis. No Brasil, por exemplo, são só cinco dias de licença-paternidade. Não se aposta nada na participação do homem.
De onde virá a “revolução”?
Tatiana – Da socialização. Fizemos estudos que mostram como há uma transmissão da violência de geração para geração. Se a prática do cuidado for disseminada nessa lógica, conseguiremos promover a transmissão geracional deste valor.
Você fala muito da importância de se trabalhar a masculinidade. Que “masculinidade” é essa?
Tatiana – Queremos promover masculinidades não violentas. A masculinidade é construída em torno de conceitos como racionalidade, razão, frieza e violência. A mulher fica com emoção e paz. O nó está nessa dinâmica de oposição e antítese.
Esse esforço fica ofuscado no debate de gênero?
Tatiana – O mundo tem avançado nos últimos 20 anos. Estamos mais perto do que longe do ideal. Para mim, não há distinção entre o movimento de masculinidades e o feminismo. Mas existe ainda a tendência de fratura. O investimento visa a respostas imediatas para as vítimas de violência, o que é necessário. Mas, se queremos também a prevenção e os agressores são homens, não podemos trabalhar só com mulheres.
Como o movimento feminista reage a essa abordagem?
Tatiana – Muita gente vê que fazemos parte de um mesmo movimento. Mas ainda há quem considere que o trabalho sobre masculinidades é secundário.
Se o machismo é uma construção social, quando ele começa a se manifestar?
Tatiana – Não sei dizer em que idade isso acontece. Mas, a partir do momento em que você não permite que um filho brinque com bonecas ou ache que carrinho não é coisa de menina, está sutilmente a perpetuar o machismo.
Como é com a sua filha?
Tatiana – Faço um esforço muito grande para ela entender em casa coisas que, às vezes, não aprende com os coleguinhas. O pai dela é extremamente presente e igualitário e somos pais não violentos. Com essa educação, percebo que já lhe causa estranheza o uso da violência ou as pessoas acharem que dois homens não podem namorar, por exemplo. Quando os coleguinhas começam a falar de namoro ela diz: “Ainda estou muito nova para isso. Nem sei se vou querer namorar menino ou menina”.
Muito se fala sobre o crescimento do conservadorismo no Brasil. Como isso tem ecoado sobre o debate de gênero?
Tatiana – Atravessamos um momento muito delicado. Fico chocada com o que as pessoas dizem publicamente, mostrando todo o seu ódio. Isso é um grande recuo na luta pela igualdade.
Há risco de retrocesso?
Tatiana – Há propostas de uma parcela conservadora que incluem a retirada da palavra “gênero” dos manuais escolares. Além disso, ainda temos muitos políticos ligados a igrejas que consideram o feminismo como encarnação do demônio. Considero isso chocante. (AG)
Os comentários estão desativados.