Segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 17 de novembro de 2018
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Vivemos em tempos nos quais o desacordo é paradigmático. Com tantas teorias historicistas por aí, eu poderia até mesmo brincar dizendo que vivemos “A Era dos Desacordos”. Desacordos de ordem econômica, desacordos políticos, e, sobretudo, desacordos morais.
“Mais Estado ou menos Estado?” “Retribuição ou ressocialização?” “O aborto deve ser permitido ou proibido?” “As pessoas podem portar armas?” “As pessoas devem portar armas?” “Ações afirmativas são justas ou injustas?”
Eu poderia seguir durante horas, com exemplos e mais exemplos, porque o tamanho da lista só é proporcional à polarização e ao grau de divisibilidade que esses desacordos engendram em uma comunidade política.
Se fizéssemos uma pesquisa, teríamos as mais variadas respostas aos desacordos que tomei como exemplos. Se assim o é em tão pequena amostragem, imaginem, então, as divergências em um país continental como o Brasil.
Discordamos, e discordamos muito. Argumentamos, e argumentamos ferrenhamente sobre aquilo em que acreditamos.
Afinal, o que levou o mundo ao estado de completo desacordo axiológico? Alasdair MacIntyre, um filósofo escocês, fornece alguns argumentos para reforçar sua teoria da catástrofe. O livro é After Virtue (Depois da Virtude).
Com o intuito de exemplificar seu pensamento acerca da crise moral, MacIntyre criou uma situação hipotética. Em certo momento da história, acontece uma catástrofe, na qual as ciências são acusadas pela opinião pública de serem responsáveis pela ocorrência de calamidades ambientais. Surgem revoltas por toda parte, os revoltosos lincham cientistas, destroem livros equipamentos e incendeiam laboratórios.
Por fim, surge um movimento político chamado de “Nenhum Saber”, a partir do qual o ensino das ciências é retirado das escolas e das universidades, os cientistas são aprisionados, e executados.
Posteriormente a essa perseguição, surgem pessoas esclarecidas e contrárias a esse movimento, que tentam ressuscitar a ciência, mesmo sem ter pleno conhecimento do que ela tinha sido. Elas possuem apenas fragmentos: conhecimento de experimentos fora do seu contexto teórico que lhe dava significado; desconhecimento da utilidade de certos instrumentos; e a perda de parte das teorias, que comprometem seu significado. “Podemos descrevê-lo como um mundo no qual a linguagem as ciências naturais, ou pelo menos parte dela, continua a ser usada, mas está num grave estado de desordem”.
Acho desnecessário dizer o quanto estamos próximos da distopia denunciada por MacIntyre. Hoje, as universidades e os intelectuais são os inimigos. Ser burro e néscio é fashion. Em um determinado momento de seu texto, MacIntyre revela que, conforme ocorreu no exemplo, também a moralidade foi fragmentada. Fora subjugada pelo movimento do “Nenhum Saber”; na realidade, o Iluminismo. Apontando que a natureza da catástrofe atingiu tamanha proporção, MacIntyre diz que a própria sociedade a desconhece: nem mesmo a história acadêmica possui a capacidade de identificá-la, porque posterior à crise do “saber nenhum” que vivemos hoje.
Para mim, grande parte desse insight está relacionado àquilo que me parece ser dominante enquanto postura ética contemporânea: o emotivismo. MacIntyre critica o emotivismo dizendo que este está por detrás de todos os desacordos. O emotivismo é, pois, o opinionismo. Ele resulta de nossas opiniões pessoais.
No império do emotivismo, nada para em pé. Tudo fica líquido ou gasoso. Como voltar a um mínimo de racionalidade e superarmos o império do saber nenhum? Eis a questão.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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