Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 26 de fevereiro de 2019
Consciente de que não tem hoje votos para aprovar a reforma da Previdência, o governo federal iniciou uma ofensiva para se aproximar das bancadas e líderes partidários, em uma tentativa de amaciar caminho e iniciar uma negociação que promete ser dura.
No início da noite dessa terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu com os líderes dos partidos na Câmara dos Deputados, pela primeira vez desde que tomou posse, em 1º de janeiro. Na expectativa de abrir um canal de comunicação com parte da oposição, ele convidou caciques do PSB e PDT.
Escalado pelo governo para explicar a reforma, o ex-deputado e agora secretário especial de Previdência, Rogério Marinho passou o dia em reuniões com bancadas, frentes parlamentares e sindicalistas. PSD, PSDB e PR foram recebidos pelo secretário, assim como a Frente Parlamentar da Agropecuária e a Força Sindical.
“Nós estamos fazendo o nosso trabalho de conversarmos com as bancadas, de esclarecermos pontos que porventura tenham ficado pouco claros para o conjunto dos parlamentares”, declarou Marinho ao sair de uma das conversas.
Mesmo entre apoiadores do governo a análise é de que a reforma da Previdência está muito longe dos votos necessários para aprovar uma PEC (proposta de emenda à Constituição). Um líder próxima ao Palácio do Planalto afirmou que uma visão otimista daria hoje cerca de 100 votos pró-governo, sendo o mais provável apenas 80. “O próprio PSL (partido de Bolsonaro), se tem 30 votos, é muito”, alertou.
O projeto em si, com propostas duras em relação a população mais pobre (aumento da idade de pagamento do Benefício de Prestação Continuada e endurecimento das regras de aposentadoria rural, além de questões que afetam corporações como as polícias e os servidores públicos) já torna improvável a tramitação sem alterações. E a falta de diálogo e de articulação até agora não tem ajudado o governo.
Antes mesmo de assumir o governo, Bolsonaro, em conversa com expoentes partidárias, prometeu que apresentaria a proposta de reforma às bancadas antes de ser enviada ao Congresso, o que não foi feito. “Foi uma promessa que ele nos fez pessoalmente e descumpriu. Seria muito mais fácil já tentar chegar com algum consenso do que ter de negociar tudo agora na Câmara”, reclama esse interlocutor.
Depois de reuniões internas entre lideranças da base e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o governo se convenceu da necessidade de que Bolsonaro pessoalmente se engaje na defesa da reforma e trate com partidos e líderes partidários.
Estratégia frustrada
A ideia de negociar com frentes parlamentares, como foi feita na montagem de governo, dificilmente irá dar grandes frutos, analisa um líder. “Bancadas têm interesses diferentes. A bancada da bala, por exemplo, é muito contrária a questões da reforma que envolvem policiais. Eles agem como sindicalistas”, afirmou.
Em evento em São Paulo, Maia cobrou publicamente uma mudança nas atitudes do presidente da República: “O problema é que presidente está refém do discurso dele de campanha. A sociedade pós-eleição gerou muita expectativa no governo Bolsonaro de que teríamos novo país e mudanças não são tão rápidas em país democrático que graças a deus nós temos”.
“Quando digo que ele precisa decidir se vai governar junto com o Parlamento, o que os partidos querem saber é qual tipo de aliança o governo pretende construir em quatro anos”, finalizou.
Maia confirmou o que líderes têm dito: hoje o governo não tem uma base e precisa atrair dez a 12 partidos para conseguir aprovar a mudança nas regras do setor. Pontos como o BPC e a aposentadoria rural afastam um número significativo de parlamentares.
“Tratar de BPC e aposentadoria rural nos tira boa parte dos deputados do Nordeste, mesmo de partidos que apóiam a reforma”, disse um líder político no Congresso. “Tem coisas que vamos precisar mexer.”
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