Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 10 de abril de 2020
A hidroxicloroquina tem ocupado espaço de destaque quando se fala em novo coronavírus e perspectivas de tratamento. Ao mesmo tempo em que muitos apostam suas fichas na droga, como é o caso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pesquisadores permanecem cautelosos e as pesquisas ainda se mostram inconclusivas.
Veja abaixo algumas das principais perguntas e respostas sobre a droga.
1) Qual a diferença entre a cloroquina e a hidroxicloroquina?
A hidroxicloroquina é um derivado oxidado da cloroquina, criado para reduzir a distribuição tecidual da droga e diminuir sua toxicidade, especialmente a ocular, segundo José Luís Vieira, do grupo de toxicologia da UFPA. A hidroxicloroquina também foi desenvolvida para driblar a resistência do tratamento da malária à cloroquina.
Ambas têm sido testadas e usadas contra o coronavírus.
2) Para que doenças essa droga já é aprovada?
Para lúpus, malária, artrite reumatoide e doenças inflamatórias. Ainda não há estudos conclusivos e uma indicação oficial para o tratamento de Covid-19.
3) Por que a droga começou a ser associada ao novo coronavírus?
Há anos se sabe que a cloroquina e seus derivados têm efeito in vitro contra os coronavírus. Diante da pandemia do novo coronavírus, o Sars-CoV-2, cientistas chineses fizeram testes preliminares do remédio, e o médico infectologista francês Didier Raoult, que estuda o medicamento há décadas, propôs testá-lo em pacientes. Os estudos chamaram a atenção do mundo num momento em que se busca um medicamento para a Covid-19. A associação da cloroquina com o novo coronavírus, porém, só ganhou repercussão mundial de vez depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que a cloroquina seria testada contra a pandemia no país. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro também se tornou um defensor da substância.
4) Quais são as evidências científicas do uso dos medicamentos contra a Covid-19?
Além da Covid-19, a cloroquina e a hidroxicloroquina já foram testadas contra zika, influenzas, ebola e chikungunya. Em células, as drogas apresentavam resultados interessantes, mas a utilização em animais apresentava problemas.
O estudo do francês Didier Raoult é uma das evidências mais citadas. A pesquisa afirmou ter identificado efeito da hidroxicloroquina em 20 pacientes, mas avaliou somente a carga viral dos pacientes, não seu resultado clínico, como febre e oxigenação.
A Isac (International Society of Antimicrobial Chemotherapy), responsável pelo periódico onde o estudo foi publicado, afirmou em 3 de abril que a pesquisa não “atendia aos padrões esperados, especialmente pela falta de explicações dos critérios de inclusão e triagem de pacientes”.
A Isac também afirma que é importante ajudar a comunidade científica a publicar novos dados rapidamente, “mas isso não pode acontecer às custas da redução do escrutínio científico”.
Um editorial da revista médica inglesa BMJ também afirmou que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19 é prematuro e potencialmente danoso.
Além do estudo de Raoul, a revista cita as fragilidades e métodos questionáveis de um estudo chinês com 62 pacientes que também tem sido apontado como prova de eficácia.
O Ministério da Saúde afirma que, “até o dia 23 de março de 2020 foram identificados dois estudos clínicos, com resultados divergentes, sobre o uso de hidroxicloroquina. Os dois estudos são pequenos e com alto risco de viés.”
Atualmente, há pelo menos 80 estudos no mundo testando cloroquina ou hidroxicloroquina contra a Covid-19, e com mais dados será possível saber qual seu real efeito contra a doença.
5) Os casos de pacientes que contraíram o coronavírus, usaram a cloroquina e se recuperaram não servem como prova de que o remédio funciona?
Relatos de caso não têm o mesmo poder e a força dos estudos controlados, nos quais os pesquisadores dividem aleatoriamente os pacientes em diferentes grupos — um deles toma o remédio e o outro, sem saber, recebe placebo, por exemplo — para poder aferir se a droga fez mesmo diferença no curso da doença.
Na ciência, o chamado padrão ouro são os estudos controlados randomizados duplo-cegos, ou seja, nem os pesquisadores nem os pacientes sabem se estão tomando o medicamento ou o placebo, para evitar viés.
No caso da Covid-19, isso é especialmente importante porque ela pode se curar sozinha, sem necessidade alguma de medicação, em cerca de 85% dos casos, segundo a OMS. O mesmo acontece com outros vírus respiratórios.
Desse modo, é necessário um protocolo de pesquisa rígido para conseguir apontar se um remédio realmente teve impacto na melhora dos pacientes. Também é importante medir qual o melhor momento de oferecer o remédio, efeitos de diferentes doses etc.
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