Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de abril de 2021
Com os resultados da fase 3 dos estudos clínicos da CoronaVac no Chile, pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do país divulgaram também dados sobre a resposta imunológica dos pacientes, ou seja, o tipo e a quantidade de anticorpos produzidos pelo organismo para combater o novo coronavírus. Esses dados, divulgados na semana passada, ganharam relevância no Brasil diante das variantes como a P.1, que se tornaram predominantes no País. Os dados chilenos, no entanto, geram interpretações diferentes entre os especialistas.
Publicado como preprint, ou seja, uma versão que ainda não foi revista e analisada por outros cientistas, o artigo está no site Medrxiv desde o dia 1º de abril. Trata-se de um estudo pequeno com 434 participantes que foram vacinados no intervalo de duas semanas (0-14) entre 27 de novembro de 2020 e 9 de janeiro de 2021.
A análise sobre a resposta imunológica foi feita em um subgrupo de 190 voluntários. Os cientistas chilenos analisaram, por exemplo, a presença de anticorpos neutralizantes, capazes de bloquear a entrada do vírus na célula humana. A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac induz a uma produção de anticorpos menor do que as outras vacinas, como a Pfizer e a Moderna.
Nesse aspecto, o estudo chileno apenas confirma dados que já haviam sido reportados pelos estudos chineses de fases 1 e 2. “A CoronaVac é capaz de gerar estes anticorpos tanto em jovens como em pessoas mais velhas, mas a quantidade gerada é muito baixa, pois eles deixam de ser detectados se o soro foi diluído mais do que 16 vezes”, explica o biólogo Fernando Reinach.
Os anticorpos não são medidos em quantidade, mas sim de acordo com sua capacidade de proteção em caso de diluição. Como comparação, as outras vacinas em uso no Brasil conseguem neutralizar o vírus mesmo quando são diluídas 300 vezes.
Reinach estabelece ainda uma relação entre os anticorpos e a proteção das vacinas contra as variantes do coronavírus. “Quando (uma vacina) produz muitos anticorpos, existe maior chance de ser resistente às variantes. Existe mais espaço para perder eficácia e, mesmo assim, funcionar.”
Alguns especialistas apresentam visões diferentes. É o caso dos cientistas Daniel Y. Bargieri, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisas em Vacinas da USP, e Mellanie Fontes-Dutra, pesquisadora em bioquímica do Instituto de Ciências Básicas de Saúde da UFRGS. “É normal e esperado que vacinas baseadas em vírus inativados, como a CoronaVac, estimulem quantidades menores de anticorpos do que vacinas que não utilizam o vírus inteiro. São estratégias diferentes”, diz Bargieri.
Imunizantes de mRNA ou RNA mensageiro, como a da Pfizer, por exemplo, são criados a partir da replicação de sequências de RNA (primo do DNA) por meio de engenharia genética. O RNA mensageiro mimetiza a proteína spike, específica do vírus Sars-CoV-2, que o auxilia a invadir as células humanas. Essa “cópia”, no entanto, não é nociva como o vírus, mas é suficiente para desencadear uma reação das células do sistema imunológico, que cria uma defesa no organismo.
A vacina de origem chinesa é feita com o vírus inativado: ele é cultivado e multiplicado numa cultura de células e depois inativado por meio de calor ou produto químico. Ou seja, o corpo que recebe a vacina com o vírus — já inativado — começa a gerar os anticorpos necessários no combate da doença.
Bargieri afirma que, apesar de estimular níveis mais baixos de anticorpos, a CoronaVac busca gerar resposta imunológica para outras proteínas do vírus, incluindo a indução de células do sistema imunológico (os linfócitos). Segundo ele, essa característica não havia sido detectada pelos estudos chineses e pode ser apontada como a grande novidade do estudo chileno.
“Esse dado é uma ótima notícia, pois indica que a vacina é capaz de treinar o sistema imunológico para agir contra todas as partes do vírus, não apenas contra a proteína S, com a presença dos linfócitos para compor o arsenal da resposta contra a infecção viral. Provavelmente a CoronaVac é menos suscetível às mutações que o vírus faz na proteína S”, diz o pesquisador do ICB.
Variantes
Os resultados sobre a resposta imunológica dos pacientes ganharam relevância no Brasil diante das variantes do novo coronavírus. Descoberta pela primeira vez em Manaus, a variante brasileira P.1 — potencialmente mais transmissível — tem sido apontada por epidemiologistas como uma das causas do aumento de casos e mortes por covid-19 no País.
O Instituto Butantan, responsável pela fabricação das vacinas no Brasil, afirmou que vai entregar os dados completos sobre imunogenicidade, capacidade de geração de respostas imunes aos indivíduos vacinados, para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia 30 de abril. “Conhecer a imunogenicidade permite entender a amplitude da vacina, relativa a variantes do coronavírus, e a duração da resposta imune”, explica o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).
Os comentários estão desativados.