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Colunistas A fábula

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Era uma vez, não é assim que costumavam começar as fábulas? Quantas terei ouvido, quando prestava atenção em minha mãe que acompanhava a sua leitura com o gestual que era fundamental para dar um misto palatável de fantasia e realidade. Nunca esqueci de uma que me parecia que é de Andersen.

É provável que o caro leitor a conheça: por ter ouvido, ou, se um avô “profissional”, por já ter contado.

Tudo acontece no distante continente do Nunca Mais, que era governado por um Rei tirano, a mais não poder. Ditador com pós-graduação tanto na Arábia Saudita como na Venezuela, isto é, tanto no modelo escancarado como no faz-de-conta que é democracia.
O Rei de Nunca Mais sabia que o povo lhe tinha ódio e temor. Um certo dia, o assessor que tinha a missão de lhe dar um noticiário irreal de fatos e feitos agradáveis, ao final do rotineiro informativo de mentiras oficiais, pedia licença para lhe transmitir um episódio interessante.

O Rei, um tanto a contragosto (de verdade, nem ele gostava do assessor, nem o assessor, dele), disse que falasse logo. E ai ouviu que fora descoberta uma velhinha, moradora no bosque “ Sempre Verde” que todas as manhãs cedinho (seis horas da madrugada) ia à missa. E fazia questão de contar que não podia faltar porque ia regar pela saúde do Rei. Segundo o assessor, o eficiente Departamento de Bisbilhotice e Invencionice tinha feito uma checagem rigorosa (ouvindo o padre amedrontado, que já fora dizendo: que a “ culpa não era dele” mas confirmou a história da Vovó crente e madrugadora).
O Rei, pelo seu ibope particular, de verdade, estava abaixo dos números do Temer, determinou que trouxessem a velhinha ao Palácio para uma conversa “tête-à-tête”.
E como sabia do seu merecido prestigio de odiado déspota sem resquício de simpatia popular achou que a estória era inverídica, exercício de puxa-saquismo do assessor. E já foi anunciando: “garanta que dou minha palavra que nada de ruim lhe acontecerá”, diga ela o que disser.

Apesar da resistência, ela acabou convencida e aceitou o convite (e tinha outra alternativa?).

No encontro, foi logo dizendo: “eu sei que o povo me odeia e tem medo de mim, é verdade que você reza diariamente pela minha saúde?
A nossa heroína, do alto dos seus 85 anos, rapidamente respondeu: “ só falo se me der sua palavra (que continuava não valendo nada) que nada de ruim me acontecerá”.
O Imperador, com ar (que só pode ser majestático) prometeu dar-lhe um alvará especial (mais ou menos como aquele – invencionice pura – que o Supremo deu a Lula como presente de Páscoa).

Foi ai que ela falou: seu avô, quando Rei, foi perseguidor, injusto, um soberano que não amava seu povo nem por ele era amado.
Seu pai, que o sucedeu, logo mostrou que tinha todos os defeitos de seu avô, conseguindo, no entanto, ser pior, a pura maldade.
Você, ao sucede-lo, tem feito um esforço para ser o mais odiado, injusto, um criminoso no Poder.

Por que rezo pelo Senhor, interrogou-se a velhinha? Porque o seu filho, quando lhe suceder, conseguirá ser pior que o Senhor.

Ai termina a fábula. Parece que o Rei não mudou.

Da velhinha não se teve mais notícia.
Estamos vivendo, hoje, o surpreendente (só pode ser melhor se, na prática, for verdade excessiva) viravolta da posição do ditador norte-coreano.
Ele é o terceiro: avô, filho e neto.

Se o anunciado e comemorado (abraços, beijinhos, passeio de mãos dadas no jardim com o Presidente da Coreia do Sul) trouxer a paz, a fábula de Andersen será só uma fábula que a História revogou, se não…

 

 

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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