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Colunistas A fumaça que escondia o aquecimento

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(Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Confesso que, quando li a manchete dizendo que o ar mais limpo pode estar acelerando o aquecimento global, minha primeira reação foi de surpresa. Não porque desconheça a complexidade das mudanças climáticas, mas porque sei que uma frase como essa, retirada de seu contexto, pode rapidamente virar munição para aqueles que ainda insistem em negar o problema climático. E talvez seja justamente por isso que precisamos compreender o que está acontecendo, antes de tirar conclusões precipitadas.

A explicação é fascinante e, ao mesmo tempo, inquietante. Durante décadas, a humanidade queimou enormes quantidades de carvão, petróleo e outros combustíveis fósseis. Junto com o dióxido de carbono, essa atividade lançou na atmosfera grandes quantidades de poluentes, entre eles partículas de sulfato. Alguns desses aerossóis refletem parte da radiação solar de volta para o espaço e também alteram as nuvens, produzindo um efeito de resfriamento. Em outras palavras, a poluição do ar acabou funcionando, involuntariamente, como uma espécie de máscara sobre parte do aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa.

Agora estamos fazendo algo que só pode ser considerado positivo: estamos limpando o ar. Reduzimos emissões de poluentes que provocam doenças respiratórias, afetam ecossistemas e diminuem a qualidade de vida. O problema é que, ao retirar parte desses aerossóis da atmosfera, também retiramos uma parcela daquele efeito temporário de resfriamento. O resultado pode ser que uma parte do aquecimento que estava sendo mascarada apareça mais claramente.

É aqui que precisamos ter cuidado com a interpretação. Não significa que o ar limpo esteja causando a crise climática. Muito menos que o dióxido de carbono deixou de ser importante. É justamente o contrário. Estamos descobrindo que uma parte do aquecimento provocado pelos gases de efeito estufa estava sendo compensada temporariamente por outro tipo de poluição.
É como se durante anos tivéssemos colocado uma cortina diante de uma janela. Quando retiramos a cortina, a luz que já estava lá entra com mais intensidade. Não foi a retirada da cortina que criou o Sol.

O IPCC já reconhece há anos o efeito de resfriamento produzido por determinados aerossóis. Pesquisas recentes, inclusive publicadas em revistas científicas como Nature e Nature Communications, procuram dimensionar quanto a redução desses poluentes pode ter contribuído para a aceleração recente do aquecimento. A ciência está aperfeiçoando seus cálculos, como sempre deve fazer. Isso não é sinal de fraqueza da ciência. É justamente a ciência funcionando.

O que mais me chama a atenção, porém, é a lição que existe por trás desse fenômeno. Durante muito tempo confundimos desenvolvimento com capacidade de consumir mais, produzir mais e emitir mais. Agora estamos diante de uma oportunidade histórica: aprender a produzir prosperidade sem produzir destruição.

Precisamos limpar o ar e, simultaneamente, reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa. Precisamos substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis, eletrificar transportes e processos industriais, modernizar nossas redes elétricas, ampliar o armazenamento de energia e usar a tecnologia para fazer mais com menos recursos.

Isso não deveria pertencer a um partido, a uma ideologia ou a uma eleição. O clima não vota. A atmosfera não escolhe governos. As leis da física não fazem campanha eleitoral.

Quando transformamos a questão climática em uma guerra entre esquerda e direita, perdemos justamente aquilo que deveria nos unir: a percepção de que estamos falando do futuro da própria civilização.

Eu vejo a transição energética muito mais como uma etapa da evolução humana do que como uma bandeira ambiental. A mesma inteligência que nos permitiu dominar o fogo precisa agora nos ensinar a conviver com os limites do planeta. O desafio não é voltar ao passado, mas avançar para uma civilização mais eficiente, limpa, inteligente e capaz de prosperar sem destruir as condições que permitem a própria vida.

Talvez a maior ironia seja esta: estamos começando a enxergar melhor o problema justamente porque conseguimos limpar parte da fumaça.

Não deveríamos comemorar a fumaça que desapareceu. Deveríamos agradecer por finalmente conseguirmos enxergar com mais clareza o caminho que temos pela frente.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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