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Tecnologia “A inteligência artificial está drenando todo o conhecimento da Humanidade em benefício de um punhado de bilionários”

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Economista francês alerta para os riscos de a inteligência artificial (IA) acelerar ainda mais a concentração de riqueza. (Foto: Reprodução)

A ascensão de Elon Musk como o primeiro trilionário da História ilustra um movimento que, para o economista francês Gabriel Zucman, não tem nada de imprevisível ou inevitável. Em entrevista ao jornal O Globo por ocasião do lançamento da edição brasileira de “Os bilionários não pagam imposto de renda e nós vamos acabar com isso” pela Zahar, ele afirma que décadas de redução da tributação sobre o capital permitiram uma concentração inédita de riqueza – e, junto a isso, muito poder político.

Defensor de um imposto mínimo global de 2% sobre grandes fortunas, Zucman alerta para os riscos de a inteligência artificial (IA) acelerar ainda mais a concentração de riqueza em um “punhado de bilionários” e afirma que isso é uma ameaça aos ideias democráticos.

– O mundo testemunhou o surgimento do primeiro trilionário do planeta, Elon Musk. Seu patrimônio líquido equivale hoje a cerca de 3% do PIB dos EUA, percentual superior ao auge da fortuna de John Rockefeller, que representava cerca de 2,3% do PIB há um século. O que explica esse nível de concentração no topo? “Antes de tudo, para além do caso de Elon Musk, o fato é que houve uma explosão na riqueza dos super-ricos nos EUA. E, na verdade, globalmente, essa é uma das características mais importantes da economia mundial das últimas décadas, com uma aceleração desde 2010 e uma aceleração da aceleração nos últimos dois anos. Existem várias razões para isso, mas talvez uma das mais importantes seja a mudança na tributação (corporativa) que ocorreu desde os anos 1980. É preciso entender que a riqueza dos bilionários consiste essencialmente na posse de ações de empresas, o que representa mais de 90% do patrimônio deles. É claro que eles também têm pinturas e coisas do tipo, mas essencialmente o valor deles é a participação acionária em empresas.

Quando a alíquota do imposto corporativo cai, isso significa mais renda que as empresas podem distribuir como dividendos ou poupar e reinvestir. Essa tem sido uma tendência poderosa. Há também uma tendência global mais ampla de redução na tributação sobre capital, não apenas os lucros corporativos, mas também os ganhos de capital, dividendos, juros e patrimônio.

Com a globalização, vimos uma explosão nos lucros e nas avaliações de mercado das grandes empresas multinacionais, que colheram os frutos da integração econômica global. Ao mesmo tempo, o sistema tributário, em vez de conter essas tendências ou tentar garantir que todos compartilhassem os ganhos, acabou reforçando esse cenário.”

– A trajetória de Elon Musk também serve de exemplo de como os ultrarricos podem moldar ou influenciar a política? Em seu livro, você argumenta que a concentração de riqueza representa uma ameaça aos ideais democráticos? “Às vezes, ouvimos o argumento de que a riqueza de bilionários ou trilionários é algo virtual – que não existe de fato, estando apenas no papel. No livro, enfatizo que não é bem assim. A riqueza extrema é sempre muito real. Ela representa sempre um poder enorme: o poder de comprar empresas de mídia e influenciar a ideologia dominante; o poder de distorcer mercados ao adquirir concorrentes; e o poder de comprar eleições para influenciar a formulação de políticas públicas. O próprio Musk é um excelente exemplo. Em 2022, ele simplesmente acordou certa manhã e disse: ‘Quero comprar o Twitter’, e encontrou com muita facilidade os 44 bilhões de dólares necessários para isso. Depois, transformou a plataforma em uma máquina de propaganda a serviço de diversas causas políticas e ideológicas, como reeleger Donald Trump. Então, você realmente vê que a riqueza extrema é sempre um poder extremo. Nunca é virtual; é um poder muito real que você pode optar por usar ou não. Elon Musk é uma boa ilustração de quão rapidamente a riqueza se traduz em poder político.”

– Qual é o risco para a democracia? “O fato de que todas essas plataformas e algoritmos pertencem a alguns poucos indivíduos ultra-ricos – que poderiam, se quisessem, ajustá-los de qualquer maneira para manipular a opinião pública em todo o mundo – é uma forma tão extrema de influência que realmente precisamos enfrentá-la hoje. E a IA (inteligência artificial) está ampliando isso, pois ela está, de certa forma, drenando todo o conhecimento produzido e acumulado ao longo de milênios por toda a humanidade e confinando-o em espaços restritos. Esse conhecimento está sendo apropriado por apenas algumas empresas pertencentes a indivíduos super-ricos dos EUA e é difícil entender como podemos deixar isso acontecer. Esse conhecimento pertence a toda a humanidade. Não podemos aceitar que o conhecimento humano possa ser apropriado dessa forma e os benefícios capturados por apenas um punhado de bilionários.” As informações são do jornal O Globo.

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