Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 15 de maio de 2018
Acusado de violência doméstica, o brasileiro Roberto Caldas renunciou ao cargo de juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O órgão informou na terça-feira (15) que Caldas enviou um pedido formal de renúncia na segunda-feira (14). Ele já havia feito um pedido de licença por tempo indeterminado. Em comunicado publicado no Twitter, a corte informou que deu efeitos imediatos ao pedido de renúncia. O mandato de Caldas iria até dezembro deste ano.
No documento, a corte diz que ele foi denunciado por supostos atos de violência doméstica no Brasil e defende investigação. Além disso, condena “todo tipo de violência contra a mulher”. Caldas foi acusado pela ex-mulher, Michella Pereira, por injúria, agressão, espancamento, ameaça de morte e assédio sexual. A defesa dele negou a ocorrência de agressões física e reconheceu “serem graves as inúmeras ofensas verbais feitas pelo casal ao longo de uma tumultuada relação”.
Em 2012, Caldas foi eleito para compor a corte, que chegou a presidir entre 2016 e 2017. O advogado também integrou a Comissão de Ética Pública da Presidência da República de 2006 a 2012. A Convenção Americana sobre Direitos Humanos determina que os juízes escolhidos para compor a corte devem ser “eleitos a título pessoal dentre juristas da mais alta autoridade moral, de reconhecida competência em matéria de direitos humanos, que reúnam as condições requeridas para o exercício das mais elevadas funções judiciais”.
Relato
Este ano, a estudante de Direito Michella Marys afirmou ter tido o melhor Dia das Mães de sua vida: ao lado da filha, de 17 anos, e dos dois filhos, de 12 e 8 anos, e longe das agressões e dos xingamentos do ex-marido, Roberto Caldas, de 55 anos. Os filhos do casal vivem com a mãe, e o pai manda o motorista buscá-los quando quer vê-los. Denunciado por Michella por tê-la espancado e ameaçado de morte e ter assediado funcionárias do casal, ao longo dos 13 anos e meio em que ficaram juntos, ele pediu, primeiramente, afastamento do cargo após as revelações feitas pela ex-mulher à “Veja”. Michella recebeu O Globo em sua casa. Entre lágrimas, reconstituiu os anos de sofrimento que viveu.
Quando foi agredida pela primeira vez?
Conheci o Roberto na praia, em 2004. Ele era um príncipe encantado, mandava flores, presentes, coisa que os homens de Aracaju, onde eu morava, não faziam. Ele fazia declarações, lia poesias, me ligava 30 vezes por dia. Nos apaixonamos e, depois de alguns meses de namoro, ele me pediu para morar com ele em Boston. Lá, meu pesadelo começou. Estava longe da minha família, dependente emocional e financeiramente dele, e logo engravidei do nosso primeiro filho. A primeira agressão foi por causa de um jantar com comidas nordestinas, em 2007. Era uma rabada, buchada, algo assim, e quando me viu comendo, quebrou o prato e disse que a pobreza não saía de mim. Fomos para o quarto e lá puxou meus cabelos, me chamou de vagabunda. Todas as nossas brigas eram por motivos fúteis.
Com que frequência isso ocorria?
Agressões verbais e injúrias eram diárias. Físicas, como me bater com o controle remoto na cabeça, empurrão, tapa e cascudo, eram semanais. Fui espancada umas seis vezes, numa delas, grávida do nosso segundo filho. Ele puxou meu cabelo, me empurrou de uma escada de três degraus e deu chutes na minha barriga. Passei vários dias com dores. Quando fiz o exame estava com um hematoma no útero. Passei a gravidez na cadeira de rodas.
Por que levou tantos anos para denunciar?
Eu estava ao lado de uma pessoa que tinha um nome muito forte não só no Brasil mas no exterior, com muita influência jurídica, econômica e política. Quem iria acreditar em mim? Toda vez que o Roberto me batia ele dizia: “Vamos para a delegacia para você prestar queixa. Quero ver se vão acreditar em você”. Ele dizia que era juiz. Dizia que ia tomar os meus filhos.
Ele batia na frente de amigos?
Não. Era tudo muito velado. Ele só me batia no banheiro ou no closet. Com o tempo, foi estendendo as agressões verbais para a frente dos meus filhos e funcionários. Alguns ouviam a gritaria e me viam roxa no dia seguinte.
Os comentários estão desativados.