Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2020

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Brasil As agressões à Miss Brasil reacendem a discussão sobre o racismo em concursos de beleza

Monalysa Alcântara é a terceira negra a vencer o concurso desde 1954. (Foto: Divulgação)

Faz menos de uma semana que a piauiense Monalysa Alcântara recebeu a coroa do Miss Brasil 2017. Mas, de lá para cá, ao lado de uma série de elogios à sua beleza na internet, houve uma enxurrada de comentários racistas: “Cara de empregadinha”, “cota no Miss Brasil” e outras expressões do tipo surgiram na web.

Muitos internautas, na torcida por candidatas como do Rio Grande do Sul, que é branca, contestaram, com ofensas, a decisão dos jurados. Um internauta nas redes sociais chegou a fazer o seguinte comentário: “Não trouxe nem um cabelo arrumado decentemente pro desfile do Miss Brasil e esperam que ela traga a coroa do Miss Universo”.

Após a repercussão negativa, muitos dos perfis responsáveis pelas postagens foram excluídos das redes sociais.

Casos assim não são raros na história de concursos como o Miss Brasil e o Miss Universo — no qual, agora, Monalysa irá representar o País, ainda sem data e local definidos. Um dos mais emblemáticos foi a série de agressões sofridas em 2011 pela representante de Angola, Leila Lopes, instantes após vencer o Miss Universo daquele ano.

Mensagens em português e em inglês postadas em um site internacional que se define como supremacista branco e reúne seguidores de Adolf Hitler compararam a ganhadora do título de mais bela do mundo a uma “macaca”. Na época, um membro desse site escreveu em inglês “Monkey in a dress? Absolutely revolting” (“Macaco de vestido? Absolutamente revoltante”) abaixo da foto de Leila.

O site, intitulado Stormfront, foi investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de ligações com grupos neonazistas que promovem ataques a negros, judeus, nordestinos e imigrantes.

Negros e nordestinos

Além de agressões racistas, houve também no Miss Brasil casos de preconceito em relação ao Estado de nascimento da miss. Em 2014, a vencedora da disputa, Melissa Gurgel, do Ceará, teve que lidar com comentários preconceituosos que surgiram nas redes sociais, referindo-se ao seu sotaque e à origem nordestina.

“Miss Ceará: bonita até abrir a boca e vir aquele sotaquezinho sofrível” e “lembrem de deixar a TV no mudo quando a Miss Ceará for dar a palestra dela no Miss Brasil do ano que vem” foram alguns dos comentários nas redes.

Melissa se manifestou contra as agressões em seu perfil no Facebook, na época: “Lamento muito que as pessoas se limitem a julgar os outros pelo que elas aparentam ser e pelas suas características culturais”, disse ela.

Terceira negra

Monalysa é a terceira mulher negra a vencer o Miss Brasil, que existe desde 1954. Apenas esse fato é apontado por analistas como indicador de que existe uma resistência histórica a apontar mulheres negras como sendo mais bonitas do que brancas. E, mesmo agora, com o que parece ser uma quebra desse paradigma, há uma resistência de parte do público.

Antes de Monalysa, Raissa Santana ganhou o concurso no ano passado, sendo esta a primeira vez que uma negra passa a coroa para outra. Raissa quebrou o jejum de 30 anos da vitória de uma mulher negra na competição, o que não acontecia desde a década de 1980, quando Deise Nunes foi eleita Miss Brasil.

Em entrevistas no início deste ano, Deise destacou que, atualmente, as redes sociais tornam pior a exposição das misses.

“Antigamente, algumas coisas eram cobertas. Só havia jornais e revistas. O filtro era maior. Hoje em dia as pessoas escrevem barbaridades em posts de personalidades e veículos de comunicação. Ninguém nem se preocupa com a possibilidade de ser processado em um primeiro momento”, afirmou ela, em janeiro.

Deise contou que aconselhou a Miss Brasil 2016, Raissa Santana, a não carregar o peso da obrigatoriedade do título e filtrar o que lê na internet. O preconceito racial continua uma realidade, como sempre foi, mas a diferença, segundo ressaltou Deise, está na evolução das plataformas digitais que intensificam ainda mais as agressões.

Raissa chegou a publicar um post em seu perfil no Facebook, em janeiro deste ano, no qual falou sobre os desafios que enfrentou desde a adolescência, quando sofria bullying e preconceito por ser “negra e feia”.

Desde que a atual Miss, Monalysa, ganhou o concurso, na noite do último sábado (19), muitos usuários da internet têm afirmado que ela só foi eleita a vencedora porque “se vitimizou” e outros tantos criticaram a cor de pele e os cabelos encaracolados da moça.
Com 82 mil seguidores no Instagram, Monalysa é referência em cabelos crespos e cacheados e já se posicionou, após a competição, sobre seu papel no aumento da representatividade da mulher negra.

“Quero dar voz para as mulheres e não vou aceitar ver nenhuma delas dizendo que não é capaz. Me chamavam de feia e hoje eu represento a beleza brasileira”, comentou Monalysa. (AG)

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